A economia brasileira entrou no último trimestre do ano perdendo fôlego. A retração de 0,3% da atividade econômica em outubro, após a queda de 0,6% registrada em setembro, confirma um cenário de desaceleração que já não pode ser tratado como pontual. Duas retrações consecutivas indicam que o ritmo do crescimento perdeu tração de forma mais consistente, acendendo um sinal de alerta para o fechamento do ano e para as perspectivas de 2026.
Esse desempenho ocorre em um ambiente de juros extremamente elevados. A taxa Selic, mantida em 15% ao ano — o maior patamar desde julho de 2006 — tem cumprido seu papel clássico de conter a inflação, que só recentemente voltou ao limite da meta após 13 meses acima do teto. No entanto, o custo dessa estratégia monetária é alto e já se reflete diretamente na atividade produtiva.
Juros nesse nível encarecem o crédito, reduzem o consumo das famílias, desestimulam investimentos e pressionam especialmente setores mais sensíveis ao financiamento, como comércio, indústria e construção civil. Pequenas e médias empresas, que dependem de capital de giro e crédito bancário, sentem de forma ainda mais aguda os efeitos dessa política, o que ajuda a explicar o arrefecimento da economia.
O desafio que se impõe é o equilíbrio. O combate à inflação é indispensável, mas não pode ignorar seus impactos sobre o crescimento, o emprego e a renda. Com a inflação dando sinais de acomodação, cresce a expectativa do mercado e do setor produtivo por uma mudança gradual na condução da política monetária, capaz de aliviar o custo do crédito sem comprometer a estabilidade de preços.
O momento exige cautela, mas também sensibilidade. Persistir por muito tempo com juros em níveis tão elevados pode aprofundar a desaceleração e comprometer a recuperação sustentável da economia. O Brasil precisa de um ambiente que combine responsabilidade fiscal, controle inflacionário e estímulo à atividade produtiva — pilares essenciais para retomar o crescimento e garantir mais previsibilidade a empresas e famílias.
Mais do que números mensais, os dados recentes indicam que o país caminha sobre uma linha tênue. A travessia entre o combate à inflação e a retomada do crescimento será decisiva para definir o ritmo da economia nos próximos meses.