O Carnaval é, por essência, uma celebração da cultura popular, da alegria e da ocupação dos espaços públicos. Mas os dados divulgados pelo Instituto Locomotiva impõem uma reflexão urgente: 47% das mulheres brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio sexual durante o Carnaval, e 80% têm medo de passar por essa situação. Além disso, 86% dos entrevistados reconhecem que o problema ainda existe na festa.
Não se trata de um episódio isolado, nem de um “exagero” associado à multidão. Trata-se de um problema estrutural que atravessa a sociedade e se manifesta também nos momentos de lazer. Como destacou a diretora de pesquisa do instituto, Maíra Saruê, estamos falando do direito de ir e vir, do direito ao lazer e do acesso à cidade.
Quando mulheres precisam traçar rotas alternativas, evitar horários, sair apenas em grupo ou manter constante estado de alerta para se proteger, algo está profundamente errado.
Em Poços de Caldas, a campanha “Não é não – Carnaval sem Assédio” surge como iniciativa importante. A mobilização do poder público, por meio da Prefeitura, envia uma mensagem clara: assédio não é paquera, não é brincadeira e não é parte da folia. É violência.
Mais do que cartazes e slogans, campanhas como essa precisam gerar mudança cultural.
O Carnaval movimenta a economia, impulsiona o turismo e fortalece a identidade cultural da cidade. Mas nenhum indicador econômico pode ser celebrado se parte da população não se sente segura para participar. Uma festa verdadeiramente democrática só existe quando todos podem ocupar as ruas sem medo.
Se o Carnaval é tempo de liberdade, que seja também tempo de responsabilidade. Porque alegria só é completa quando é compartilhada — e nunca imposta.