Campinas (SP) – A reportagem do Mantiqueira esteve no aconchegante Estádio Estádio Moisés Lucarelli, em Campinas, no domingo, para acompanhar o confronto entre Associação Atlética Ponte Preta e São Paulo Futebol Clube, pela última rodada da fase de grupos do Campeonato Paulista. A proximidade com Poços de Caldas facilitou a ida até a cidade paulista. O objetivo era observar o ambiente, a atmosfera, o comportamento da torcida. O que se viu, no entanto, provoca reflexão.
Dentro de campo, o cenário era adverso para a Ponte Preta. Mesmo rebaixada, com campanha difícil — um empate e sete derrotas em oito jogos — e perdendo por 2 a 1, para o Tricolor Paulista, a torcida da Macaca não abandonou o time. Incentivou do início ao fim, cantou, empurrou, mostrou a força da paixão que move o futebol brasileiro. A arquibancada vibrou, sofreu e permaneceu ao lado do clube.
Mas um episódio fora das quatro linhas chamou mais atenção do que o placar. Um casal precisou mudar de lugar porque suas vestimentas poderia desagradar parte da torcida pontepretana. A mulher usava uma camiseta esverdeada — não era uniforme de time, não fazia referência explícita ao rival Guarani Futebol Clube, tampouco a Sociedade Esportiva Palmeiras. Era apenas uma peça comum, de uso cotidiano. Ainda assim, a cor “maldita” foi suficiente para gerar o constrangimento de ser convidada a sair de onde estava. “Aqui só se tolera preto e branco”, destacou um integrante da segurança.
O homem vestia uma camiseta em tom vinho. Para a segurança e policamento no estádio, a cor poderia remeter ao São Paulo, cujas cores são preto, branco e vermelho. Bastou a suposição. A pressão foi direta: ou mudavam de lugar — ou poderiam enfrentar hostilidade.
Para permanecerem no estádio com um mínimo de tranquilidade, ambos se dirigiram a uma loja oficial da Ponte Preta dentro do Moisés Lucarelli e compraram camisetas do clube da casa. Não por escolha espontânea, mas como forma de garantir segurança e continuar assistindo à partida. Naquele momento o preço salgado das camisetas não era o maior impecílio, mas sim a segurança.
O episódio contrasta com as mensagens transmitidas pelo sistema de som do estádio, que destacavam a cultura de família e o respeito às mulheres. A prática, naquele momento, mostrou outra face e longe de ser realidade naquele estádio.
Segundo informações das forças de segurança para a reportagem do Mantiqueira, cerca de 80 pessoas foram retiradas do estádio durante o jogo por atos de indisciplina. A reportagem presenciou um destes torcedores correndo da polícia nas arquibancadas, levando algumas pancadas dos policiais e sendo preso em seguinda. Ambiente nada familiar presenciado por todos, inclusive famílias.
A pergunta que fica é incômoda: até que ponto a liberdade individual cabe dentro de um estádio de futebol? Ninguém aqui é inocente e sabe que não estamos num mundo de conto de fadas. Mas o que vimos no Campinas estrapola a liberdade. Deixamos claros que sabemos que não é exclusividade campineira. Infelizmente casos e mais casos de violência de torcedores são registrados todos os finais de semana após ou antes do jogos nos nossos estádios.
Sabemos que a rivalidade faz parte do espetáculo. A provocação também. Mas quando a cor de uma roupa passa a ser motivo de intimidação, algo está fora do eixo. O estádio deveria ser território da paixão, não da imposição.
Muito se critica a elitização do futebol, o preço elevado dos ingressos, a transformação do torcedor em consumidor. No entanto, episódios como esse alimentam justamente esse processo. A ideia de que somente um ambiente mais controlado — e mais caro — garante segurança acaba ganhando força.
O risco é evidente: punir o torcedor comum, aquele que ama seu clube, mas entende que o respeito ao próximo é inegociável. Torcidas organizadas com histórico de violência não podem receber tratamento diferenciado ou benefícios que reforcem desigualdades. A lei deve ser aplicada de forma uniforme.
O futebol brasileiro sempre foi sinônimo de diversidade, mistura e convivência. Quando vestir uma camiseta de cor “errada” se torna ameaça, não é apenas a liberdade que está em jogo — é a essência do próprio espetáculo.
O que se viu em Campinas não foi apenas um caso isolado. Foi um sinal. E sinais, no futebol, precisam ser levados a sério.
PAULO VITOR DE CAMPOS
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