O Carnaval sempre foi mais do que festa. É manifestação cultural, identidade popular e, historicamente, também espaço de crítica, ironia e posicionamento político. No Brasil, a avenida nunca foi neutra — ela reflete o país real, com suas tensões, paixões e disputas.
Nos últimos anos, a presença da política nos desfiles se intensificou. Presidentes, decisões de governo, crises institucionais e debates ideológicos passaram a ocupar lugar de destaque em enredos e alegorias. A arte carnavalesca, que tradicionalmente dialoga com temas sociais, assumiu com ainda mais clareza seu papel opinativo.
Nesse contexto, o rebaixamento da escola Acadêmicos de Niterói, que levou para a avenida um enredo envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reacende uma discussão inevitável: até que ponto o Carnaval pode — ou deve — se posicionar politicamente?
Não se trata de defender ou criticar o conteúdo do desfile em si, mas de refletir sobre a percepção pública. Quando uma escola aborda um chefe de Estado em exercício, inevitavelmente divide opiniões. Parte do público enxerga expressão artística legítima; outra parte interpreta como militância. Em tempos de polarização acentuada, essa divisão se amplia.
O rebaixamento, ainda que oficialmente decidido por critérios técnicos, inevitavelmente ganha leitura política no imaginário popular. E essa leitura — justa ou não — passa a fazer parte do debate público.
Carnaval não é apenas espetáculo; é narrativa. E narrativa é poder. As escolas de samba têm autonomia criativa e histórico de coragem temática. Mas também operam em um ambiente sensível, onde financiamento, julgamento e opinião pública se cruzam.
Ao mesmo tempo, é preciso cuidado para que a política não engula a festa. Quando o debate político se sobrepõe ao mérito artístico, o risco é transformar a avenida em palanque — e não em palco.
O Brasil sempre cantou seus governantes, criticou suas lideranças e ironizou seus poderosos no ritmo do samba. Isso faz parte da democracia cultural. O desafio é garantir que a arte continue livre — e que os critérios de julgamento permaneçam técnicos, transparentes e independentes de paixões partidárias.
O Carnaval é maior que qualquer governo. E continuará sendo. Mas a cada vez que política e samba se encontram, a sociedade é convidada a refletir: estamos celebrando cultura ou disputando narrativa?
Talvez a resposta esteja no equilíbrio. Porque a avenida é espaço de liberdade — mas também de responsabilidade.