O avanço da violência contra a mulher exige do poder público respostas que combinem prevenção, acolhimento, investigação eficiente e responsabilização dos agressores. Nesse esforço, a integração das câmeras corporais às políticas municipais de proteção pode representar um instrumento importante para preservar provas e impedir que crimes cometidos dentro de casa permaneçam invisíveis.
A situação é especialmente preocupante nas cidades do interior, que concentram 52% dos feminicídios registrados no país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre janeiro e abril deste ano, 523 mulheres foram mortas, número 24,2% superior ao verificado no mesmo período anterior. Caso essa tendência seja mantida, o Brasil poderá terminar 2026 com aproximadamente 1.680 vítimas de feminicídio.
Os números revelam que as medidas existentes ainda não são suficientes para interromper o ciclo de violência. Muitas vítimas procuram ajuda depois de sofrer ameaças, agressões, perseguições ou tentativas de intimidação. Entretanto, até a formalização da denúncia, marcas podem desaparecer, ambientes são alterados e relatos passam a ser questionados. A falta de elementos comprobatórios fragiliza investigações e processos judiciais, favorecendo a impunidade.
Nesse contexto, as câmeras corporais podem registrar o estado da vítima, as condições do local, eventuais danos materiais, o comportamento do suspeito e as declarações prestadas no momento da ocorrência. Quando utilizadas com critérios claros, treinamento adequado e respeito à privacidade, as imagens ajudam a reconstruir os fatos e oferecem maior segurança tanto para a mulher atendida quanto para os agentes públicos envolvidos.
A tecnologia, contudo, não pode ser tratada como solução isolada. As câmeras precisam integrar uma rede formada por policiais capacitados, guardas municipais, serviços de saúde, assistência social, delegacias especializadas para que a integração tenha o resultado esperado.