Poços de Caldas, MG – O espaço cultural Arte Ziriguidum promove neste sábado (25), das 15h às 19h, o lançamento do livro Nos arredores da prisão: tensões, relações e movimentos de familiares de pessoas presas, da antropóloga, cientista social e professora universitária Natália Lago. O evento será realizado na Rua Ouro Preto, 102, no Jardim dos Estados, com entrada gratuita e programação voltada ao encontro entre a autora, leitores e a comunidade.
Natural de Poços de Caldas, Natália Lago é professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e mestre e doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Publicado pela Hucitec Editora, o livro é resultado de sua tese de doutorado e reúne uma extensa pesquisa de campo desenvolvida junto a mulheres e familiares de pessoas privadas de liberdade.
A obra parte de uma questão central: o que acontece com a família quando uma pessoa é presa? A partir dessa pergunta, a autora acompanha o cotidiano de mães, esposas, companheiras, namoradas, filhos e outros familiares que, embora não estejam encarcerados, têm suas vidas profundamente reorganizadas pela experiência da prisão.
Ao longo da pesquisa, Natália Lago demonstra que o encarceramento ultrapassa os muros das unidades prisionais e alcança as casas, as relações afetivas, a organização financeira, os deslocamentos, o trabalho e a rotina daqueles que permanecem do lado de fora. A prisão, segundo a autora, rompe a rotina, mas não interrompe os vínculos familiares, exigindo que eles sejam constantemente reconstruídos.
O livro apresenta um olhar antropológico sobre as experiências dessas mulheres, revelando histórias marcadas por violência institucional, humilhações durante visitas, dificuldades econômicas, preconceitos, violações de direitos e longos deslocamentos para acompanhar familiares presos. Ao mesmo tempo, evidencia estratégias de sobrevivência, solidariedade, resistência e fortalecimento de redes de apoio construídas entre familiares.
Segundo Natália Lago, a pesquisa procura dar visibilidade a pessoas que costumam permanecer invisíveis no debate sobre segurança pública e sistema prisional. “Meu livro segue as jornadas de mulheres e familiares de pessoas presas – pessoas que não estão elas mesmas privadas de liberdade, mas que reorganizam suas vidas para acompanhar alguém que está preso. O que acontece quando alguém é encarcerado? O que acontece com as vidas de seus familiares, filhos e amigos? Essas mulheres nos falam de dureza, violência, violação, desrespeito e humilhação. Mas também nos falam de família, namoro, casamento, movimento e estratégias para viver. Elas seguem vivendo suas vidas e trazem dimensões que muitas vezes ficam apagadas no debate mais amplo sobre as prisões”, afirma a autora.
Natália explica que seu interesse pelo tema foi construído ao longo da trajetória acadêmica. Formada em Ciências Sociais pela USP, ela se aproximou inicialmente dos debates sobre direitos humanos e dos movimentos feministas. Posteriormente, passou a atuar em uma organização voltada à segurança pública e à justiça criminal, experiência que despertou seu interesse pelas prisões.
Durante a pesquisa de mestrado, realizada entre 2011 e 2014, trabalhou diretamente com mulheres privadas de liberdade. Foi nesse período que percebeu que as histórias contadas pelas detentas sempre remetiam às pessoas que permaneciam do lado de fora dos presídios. “As mulheres falavam o tempo inteiro sobre as famílias, os filhos e os companheiros. Fui entendendo que a prisão faz um corte na rotina e na vida, mas não encerra as conexões familiares e afetivas. Passei então a querer compreender como é a experiência da prisão para quem está do lado de fora”, explica.
Além da dimensão humana das narrativas, o livro oferece contribuições importantes para áreas como Execução Penal, Direitos Humanos, Antropologia, Sociologia e Justiça Criminal, propondo uma reflexão sobre a forma como o sistema prisional amplia seus efeitos para além daqueles que cumprem pena.
A publicação recebeu elogios da antropóloga Adriana Vianna, professora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que assina o texto de apresentação da obra.
Para ela, o livro rompe com a visão tradicional de que a prisão está limitada aos seus muros. “A prisão também deixa entrar. Por seus portões passam comidas, visitas, mensagens e afetos. Ela se estica, puxando para dentro aqueles que vivem fora, mas têm alguém que lhes é caro lá dentro. A prisão sombreia o caminho da volta para casa, marca as horas, os ritmos do cotidiano, o tempo de tomar a van, de preparar a comida, de suportar as esperas, as humilhações e a saudade.”
Adriana Vianna destaca ainda que o trabalho de Natália Lago mostra como os dispositivos prisionais regulam simultaneamente corpos, relações e territórios, revelando o papel das mulheres na manutenção dos vínculos familiares e na construção de formas de resistência diante das dificuldades impostas pelo encarceramento.
O lançamento no Arte Ziriguidum foi pensado como um encontro informal entre autora e público. Além da sessão de autógrafos, haverá espaço para conversa sobre a pesquisa, troca de experiências e confraternização. A proposta da organização é reunir leitores em um ambiente acolhedor para “prosear, comer um bolinho e passar a tarde juntos”.
Com entrada franca, o evento convida a comunidade a conhecer uma obra que amplia o debate sobre os impactos sociais do sistema prisional brasileiro, oferecendo uma perspectiva sensível e profundamente fundamentada sobre a vida de quem permanece “nos arredores da prisão”.
Serviço
Lançamento do livro “Nos arredores da prisão”, de Natália Lago
25 de julho (Sábado)
Das 15h às 19h
Local: Arte Ziriguidum
Rua Ouro Preto, 102 – Jardim dos Estados
TEXTO
PAULO VITOR DE CAMPOS
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