A insegurança pública não se revela apenas nos registros de crimes ou nas estatísticas policiais. Ela também pode ser medida pelas mudanças impostas à rotina da população. Quando as pessoas deixam de frequentar determinados lugares, evitam o transporte coletivo ou desistem de sair à noite, o medo já passou a interferir diretamente no direito de circular e de ocupar os espaços urbanos.
Pesquisa realizada pelo Ideia Instituto de Pesquisa mostra a dimensão desse problema. Segundo o levantamento, 60% dos brasileiros deixaram de frequentar lugares aos quais gostariam de ir por causa da insegurança. Outros 30% desistiram de utilizar o transporte público pelo mesmo motivo. Foram entrevistadas 2 mil pessoas, de todas as regiões do país, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
Os números revelam uma espécie de confinamento silencioso. Sem que exista uma determinação formal, milhares de cidadãos restringem seus próprios deslocamentos, reorganizam horários e abandonam atividades culturais, profissionais, educacionais ou de lazer. Ruas, praças, pontos de ônibus e áreas comerciais deixam de cumprir plenamente sua função quando parte da sociedade não se sente segura para utilizá-los.
A situação é ainda mais preocupante entre as mulheres, para as quais a percepção de risco é maior. Além da criminalidade comum, elas convivem com o temor de assédio, violência sexual, perseguição e outras formas de agressão. Em muitos casos, precisam planejar trajetos, evitar certos horários, compartilhar a localização com familiares ou gastar mais com alternativas de transporte. Trata-se de uma limitação concreta da liberdade.
Combater esse cenário exige mais do que ações policiais isoladas. É necessário investir em iluminação pública, transporte coletivo seguro, ocupação planejada dos espaços urbanos, câmeras de monitoramento, patrulhamento preventivo e atendimento adequado às vítimas. Pontos de ônibus, terminais e trajetos com maior incidência de ocorrências precisam receber atenção prioritária. As políticas públicas também devem considerar as experiências específicas das mulheres.
Recuperar a confiança da população nos espaços públicos deve ser compromisso permanente das autoridades. Quando o medo determina onde, quando e como uma pessoa pode sair de casa, toda a sociedade perde.