O Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, começa em meio a números que exigem mais do que indignação. Exigem atitude. Minas Gerais registrou 78 feminicídios apenas no primeiro semestre deste ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública. No mesmo período, as tentativas de feminicídio aumentaram de 95, em 2025, para 97 ocorrências neste ano.
Por trás de cada número existe uma mulher agredida, uma família destruída e, muitas vezes, uma sucessão de ameaças que não foi interrompida a tempo. São casos que demonstram como a violência de gênero permanece presente na sociedade, apesar dos avanços legais e da ampliação dos debates sobre os direitos das mulheres.
A Lei Maria da Penha, os canais de denúncia, as delegacias especializadas e as medidas protetivas representam conquistas fundamentais. Entretanto, nenhuma legislação será plenamente eficaz se a sociedade continuar tratando agressões, ameaças, humilhações e comportamentos controladores como questões privadas do casal.
A violência contra a mulher não começa necessariamente com uma agressão física. Pode surgir no controle das roupas, das amizades, do dinheiro e do telefone celular. Aparece também na desqualificação, no isolamento, no ciúme apresentado como demonstração de amor e nas ameaças naturalizadas dentro do relacionamento. Reconhecer esses sinais é essencial para impedir que a violência avance.
Os homens precisam participar ativamente dessa transformação, revendo comportamentos, rejeitando atitudes machistas e não permanecendo em silêncio diante de agressões ou ameaças. Famílias e escolas devem educar meninos e meninas com base no respeito, na igualdade e na solução pacífica dos conflitos.
Ao poder público cabe fortalecer a rede de proteção, garantir atendimento humanizado, fiscalizar o cumprimento das medidas protetivas e ampliar políticas de prevenção. A denúncia precisa ser recebida com seriedade, e a vítima não pode ser submetida à desconfiança, ao constrangimento ou à repetição desnecessária de seu sofrimento.
O Agosto Lilás não deve se limitar a campanhas durante um único mês. A mobilização precisa produzir ações permanentes e estimular uma mudança cultural capaz de romper a tolerância social com o machismo e a violência.