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​O candidato em quem o próprio partido diz não confiar 

Data da Publicação:

09/08/2026

Belo Horizonte, MG – Existe um velho princípio da política que nunca envelhece: ninguém conhece melhor um candidato do que o partido que convive com ele. Por isso, a frase dita pelo presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, talvez seja o episódio mais devastador da pré-campanha em Minas Gerais.

Ao justificar toda a crise envolvendo Cleitinho, Pereira afirmou que o partido não poderia “entregar Minas” a alguém que muda de posição constantemente. Em outra manifestação pública, foi ainda mais duro: disse que seria irresponsável colocar o Estado nas mãos de alguém que “ora pensa uma coisa e, cinco minutos depois, pensa outra”. Acrescentou ainda que o senador “nunca assumiu o papel de liderança de uma candidatura”.

  • Uma pergunta que não quer se calar

Se o próprio presidente nacional do partido afirma isso sobre seu candidato, por que ele continua sendo o candidato?

É uma contradição difícil de explicar.

Durante semanas, os mineiros assistiram a um espetáculo de improvisação. Cleitinho era candidato. Depois não era. Voltava a ser. Chorava. Desistia. Pedia nova chance. Fazia discursos dizendo que iria até o fim. Horas depois, mudava novamente de posição. Enquanto isso, partidos aguardavam definições, alianças eram congeladas, chapas permaneciam incompletas e toda a construção política da direita mineira ficou paralisada.

Não foi a imprensa que descreveu esse comportamento. Foi o presidente nacional do Republicanos.

Quando Marcos Pereira afirma que um partido sério não pode conviver com tamanha instabilidade, ele faz uma avaliação política devastadora. Não é um adversário tentando desgastar um concorrente. É o dirigente máximo da legenda expondo, diante do país, a razão pela qual deixou de confiar na condução política do próprio senador.

Agora, se depois de dizer tudo isso, o partido confirma a candidatura, sobra uma pergunta ainda mais desconfortável.

O que mudou?

Cleitinho deixou de ser inconstante de um dia para o outro?

Ou o Republicanos resolveu aceitar exatamente aquilo que dizia ser incompatível com a responsabilidade de governar Minas?

As duas hipóteses produzem um problema.

Se nada mudou, o partido abriu mão do argumento que utilizou para justificar toda a crise.

Se tudo mudou em poucas horas, então a conclusão anterior era precipitada.

Nenhuma das respostas fortalece a imagem da candidatura.

A política exige confiança. Não apenas do eleitor, mas também dos aliados.

Um governador negocia diariamente com prefeitos, Assembleia Legislativa, Congresso Nacional, empresários, Poder Judiciário e governo federal. Quem ocupa o Palácio Tiradentes precisa transmitir previsibilidade. Não porque isso seja uma virtude estética, mas porque é um requisito para governar.

O episódio recente fez exatamente o contrário. Transformou a principal característica da candidatura numa dúvida.

O dano talvez seja maior porque foi autoinfligido.

Não veio de um programa de televisão. Não nasceu de uma investigação. Não surgiu de um adversário.

Foi produzido pelo próprio Republicanos.

Quando a principal crítica contra um candidato parte da boca do presidente nacional do seu partido, a oposição sequer precisa construir discurso.

Ele já veio pronto.

É evidente que Cleitinho continua sendo um político popular. Ninguém chega ao Senado por acaso. Seu estilo direto, sua comunicação simples e sua forte presença nas redes sociais explicam boa parte dessa trajetória.

Mas popularidade nunca substituiu estabilidade. Carisma nunca dispensou capacidade de decisão. E espontaneidade jamais foi sinônimo de liderança administrativa.

O episódio expôs um problema que provavelmente acompanhará toda a campanha.

Sempre que Cleitinho anunciar uma posição importante, haverá quem pergunte se ela continua valendo amanhã.

Esse talvez seja o maior prejuízo político de toda essa crise.

A candidatura foi confirmada.

A credibilidade, porém, não acompanha automaticamente uma homologação.

Ela precisa ser reconstruída.

E isso costuma levar muito mais tempo do que uma convenção partidária.

No fim das contas, fica a imagem mais desconfortável de toda essa história.

O Republicanos apresentou aos mineiros um candidato depois de dizer, em público, que tinha dúvidas sobre sua firmeza para conduzir o Estado.

Quando um partido precisa primeiro desqualificar seu candidato para depois confirmá-lo, quem entra em crise não é apenas a candidatura.

É a credibilidade de quem a escolheu.

 

Cleitinho | FOTO: Ton Molina/Agência Senado

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