O endividamento das famílias brasileiras alcançou 82% em julho, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2010. O resultado, divulgado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), não representa apenas mais um recorde estatístico. É um alerta sobre a crescente dificuldade dos brasileiros para equilibrar as despesas básicas e preservar alguma segurança financeira.
O índice avançou 0,4 ponto percentual em relação a junho, quando estava em 81,6%, e ficou consideravelmente acima dos 78,5% registrados em julho do ano passado. A sequência de altas mostra que recorrer ao crédito deixou de ser uma decisão eventual para se transformar, em muitos lares, em instrumento de sobrevivência.
Ainda mais preocupante é o comprometimento da renda. A parcela de consumidores que destina mais da metade dos rendimentos mensais ao pagamento de dívidas chegou a 19%, o maior nível desde março. Na média, as famílias endividadas utilizam 29,5% do orçamento para cumprir compromissos com credores. Isso significa menos recursos para alimentação, saúde, educação, transporte e outras necessidades essenciais.
Nem toda dívida, é importante reconhecer, representa descontrole. Financiamentos e compras parceladas podem permitir acesso à moradia, a bens e a serviços. O problema surge quando as parcelas se acumulam, os juros tornam-se excessivos e o orçamento deixa de comportar até mesmo os gastos cotidianos. Nesse cenário, qualquer imprevisto pode empurrar uma família para a inadimplência.
O recorde de endividamento revela, sobretudo, uma população com pouca margem para respirar. Quando grande parte do salário já chega comprometida, desaparecem a capacidade de poupar, a tranquilidade para enfrentar emergências e a possibilidade de planejar o futuro.
Mais do que facilitar novos empréstimos, o país precisa criar condições para que as famílias recuperem o controle de suas finanças. Sem renda adequada, crédito responsável e juros suportáveis, a dívida deixa de impulsionar o consumo e passa a aprisionar o orçamento doméstico.