Poços de Caldas, MG – Uma viagem especial em família neste final de semana pela região de Ribeirão Preto, motivada inicialmente por uma celebração, acabou me inspirando a fazer este texto e se transformando também em uma verdadeira imersão pela história da arte brasileira.
O destino foi Brodowski, cidade do interior paulista conhecida nacionalmente por ser a terra natal de Candido Portinari, um dos maiores nomes da pintura brasileira e artista de projeção internacional.
A viagem teve como motivo principal a comemoração da formatura em Arquitetura de Larissa Benetti, namorada do meu enteado Lucas Bernardes. Acompanhado de minha esposa, Aurea, e a convite de Milena Benetti e de toda a família Benetti, o momento de confraternização ganhou um significado adicional diante da oportunidade de conhecer mais profundamente a história, a arquitetura e o patrimônio cultural preservados na cidade.
Em Brodowski, visitar a antiga residência da família Portinari é praticamente um encontro obrigatório com a memória brasileira. Transformado no Museu Casa de Portinari, o imóvel conserva muito mais do que objetos e obras. Seus cômodos, paredes, jardins, mobiliário e intervenções realizadas ao longo das décadas ajudam a contar a trajetória pessoal e artística de Candido Portinari, estabelecendo uma ligação direta entre o visitante, a vida cotidiana da família e o processo criativo do pintor.
A experiência proporciona uma viagem ao ambiente do interior paulista das primeiras décadas do século XX. É justamente nesse cenário de simplicidade, convivência familiar e referências populares que estão algumas das raízes da obra de Portinari. As lembranças da infância, das brincadeiras, do trabalho, da religiosidade e da vida das pessoas comuns apareceriam posteriormente, de diferentes formas, em sua produção artística.
Uma casa que cresceu junto com a família
O Museu Casa de Portinari preserva características arquitetônicas diretamente relacionadas à história da família. Os primeiros cômodos do imóvel remontam aproximadamente ao ano de 1900. Com o passar do tempo e de acordo com as necessidades dos moradores, novas dependências foram sendo incorporadas, fazendo com que a residência passasse por sucessivas ampliações até a década de 1950.
Essa característica torna o imóvel especialmente interessante do ponto de vista arquitetônico. A casa não surgiu a partir de um projeto único e definitivo. Ao contrário, foi sendo construída e modificada conforme a dinâmica familiar, transformando-se em um registro físico das diferentes etapas vividas por seus moradores.
O conjunto preserva elementos tradicionais das construções do período, como paredes executadas com tijolos de barro, telhas coloniais e do tipo marselha, forros e lambrequins de madeira, além de pisos de assoalho e ladrilhos hidráulicos. São características que ajudam o visitante a compreender não apenas a residência dos Portinari, mas também aspectos da arquitetura doméstica encontrada no interior paulista naquele período.
O terreno onde se encontra o núcleo histórico possui 1.674 metros quadrados. O complexo museológico foi ampliado com um imóvel vizinho, de 697 metros quadrados, destinado a funções como reserva técnica, exposições e acervo bibliográfico. Há ainda, nos fundos, uma área verde de 2.852 metros quadrados, pertencente ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), utilizada para acolhimento e integração dos visitantes.
Atualmente, a instituição é gerida pela ACAM Portinari – Organização Social de Cultura –, em parceria com a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O trabalho envolve a conservação do imóvel, dos bens culturais e das obras existentes no espaço, além das atividades educativas e de difusão do legado do artista.
Paredes transformadas em obras de arte
Uma das particularidades que tornam a Casa de Portinari um patrimônio singular está justamente em suas paredes. Em diferentes momentos, o próprio artista utilizou superfícies da residência para realizar pinturas murais, fazendo com que arquitetura e obra artística se tornassem inseparáveis.
Essa condição aumentou ainda mais a necessidade de preservação do imóvel. Não se trata apenas de conservar a casa em que Portinari viveu, mas de proteger uma edificação que passou a integrar fisicamente parte de sua produção.
O reconhecimento da importância histórica e artística do conjunto resultou em medidas oficiais de proteção patrimonial. O imóvel foi tombado pelo Iphan em 1968 e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) em 1970. Em março daquele mesmo ano, ocorreu sua inauguração oficial como museu.
Desde então, a antiga residência consolidou-se como importante espaço de preservação e divulgação da memória de Candido Portinari, permitindo que sucessivas gerações tenham contato não apenas com sua obra, mas também com aspectos mais íntimos de sua trajetória.
Capela da Nonna revela o lado afetivo de Portinari
Entre os ambientes que mais chamam a atenção está a Capela da Nonna, espaço em que arte, religiosidade e afeto familiar se encontram de maneira particularmente intensa.
A capela foi concebida por Portinari em 1940, em um anexo ligado à residência de sua avó materna, Dona Pellegrina. Já idosa e enfrentando dificuldades de saúde, ela não conseguia mais frequentar regularmente a igreja. Diante dessa limitação, o neto decidiu criar um pequeno espaço religioso para que a avó pudesse continuar exercendo sua fé sem precisar deixar a residência.
Entre o final de 1940 e o início de 1941, Portinari pintou as paredes da capela utilizando a técnica da têmpera, processo realizado a seco com pigmentos, água e cola.
O aspecto mais tocante do trabalho, no entanto, está na escolha dos modelos. Para representar os santos de devoção de Dona Pellegrina, o artista utilizou parentes e amigos. Dessa forma, rostos de pessoas próximas foram incorporados às imagens religiosas, conferindo às pinturas uma dimensão profundamente pessoal.
Mais do que um exercício artístico, a capela tornou-se uma demonstração concreta do vínculo entre neto e avó. A grandiosidade do artista reconhecido internacionalmente aparece ali associada a um gesto simples: proporcionar conforto espiritual a uma pessoa querida.
A Capela da Nonna foi abençoada e recebeu sua primeira missa oficial em 1º de março de 1941, celebrada pelo padre Francisco Sino. Décadas depois, permanece como um dos espaços mais simbólicos da casa, justamente por revelar uma faceta de Portinari que ultrapassa sua produção artística e alcança suas relações familiares e afetivas.
A origem por trás do grande artista
Percorrer os ambientes da casa ajuda a compreender a dimensão humana de Candido Portinari. Antes do artista consagrado, reconhecido no Brasil e no exterior, existiu o menino criado em Brodowski, cercado pela família e profundamente influenciado pelas paisagens, personagens, costumes e experiências do interior.
A residência preservada permite estabelecer essa conexão entre a vida cotidiana e a produção artística. A simplicidade dos cômodos contrasta com a dimensão alcançada posteriormente pela obra do pintor, mas, ao mesmo tempo, ajuda a explicar muitas das referências que permaneceriam presentes em seu trabalho.
Portinari levou para suas telas elementos do universo que conheceu desde cedo. Trabalhadores, crianças, festas, cenas populares, religiosidade, sofrimento e questões sociais aparecem em diferentes momentos de sua trajetória. Conhecer o lugar onde parte dessas referências foi formada acrescenta uma nova perspectiva à compreensão de sua produção.
A visita, portanto, ultrapassa o caráter contemplativo de um museu tradicional. Há uma sensação de proximidade com o artista justamente porque o visitante percorre espaços efetivamente ligados à sua vida e à sua família.
Tecnologia
Outro aspecto que chama a atenção durante a visita ao Museu Casa de Portinari é a maneira como a tecnologia foi incorporada à preservação e à apresentação da história do artista. Recursos modernos e equipamentos interativos complementam o acervo histórico e permitem ao visitante conhecer, de maneira envolvente, diferentes momentos da vida de Candido Portinari e de sua família.
A experiência vai muito além da simples observação de obras, objetos e ambientes preservados. Os recursos tecnológicos ajudam a contextualizar acontecimentos, personagens e etapas da trajetória do pintor, criando uma sensação de proximidade com sua história. Em determinados momentos, é difícil não se emocionar. A impressão é de que o visitante deixa de ser apenas um espectador e passa, de alguma maneira, a acompanhar os acontecimentos narrados dentro daqueles espaços.
A riqueza de informações permite conhecer não somente o Portinari artista, consagrado nacional e internacionalmente, mas também o homem ligado às suas origens, à família e à cidade onde nasceu. Fotografias, documentos, informações históricas e diferentes recursos de apresentação ajudam a reconstruir um universo marcado por relações familiares intensas e por experiências que tiveram influência direta sobre sua produção artística.
Entre os aspectos mais comoventes está justamente a relação de Portinari com seus familiares. A visita evidencia a importância desses vínculos em sua trajetória e revela um homem profundamente conectado às pessoas que fizeram parte de sua formação. Essa dimensão afetiva pode ser percebida em diferentes pontos da casa e encontra uma de suas maiores expressões na Capela da Nonna, criada para possibilitar que sua avó materna, Dona Pellegrina, pudesse manter suas práticas religiosas mesmo diante das limitações impostas pela idade e pela saúde.
Outro ponto fascinante é conhecer mais sobre as técnicas utilizadas pelo artista e sua relação com os materiais empregados na produção de suas obras. Portinari mantinha uma ligação intensa com o processo de criação, experimentando materiais, pigmentos e diferentes possibilidades para alcançar os resultados desejados em suas pinturas.
Essa relação tão próxima com os materiais artísticos, porém, carrega uma dimensão trágica. Ao longo dos anos, Portinari sofreu os efeitos da intoxicação provocada pela exposição aos componentes tóxicos presentes em algumas das tintas utilizadas em seu trabalho. Mesmo após recomendações médicas para reduzir ou interromper o contato com determinados pigmentos, continuou produzindo. O artista morreu em 6 de fevereiro de 1962, aos 58 anos, em decorrência de intoxicação causada pelos elementos presentes nas tintas.
A informação provoca ainda mais impacto quando conhecida dentro da própria casa onde tantas referências de sua trajetória permanecem preservadas. O visitante percebe que a pintura não foi apenas a profissão de Portinari. Foi uma dedicação que atravessou praticamente toda a sua existência e esteve profundamente ligada à maneira como ele observava e interpretava o Brasil.
É justamente a combinação entre patrimônio histórico e recursos tecnológicos que torna a experiência tão completa. A tecnologia não substitui a força da casa, das pinturas murais, dos objetos ou da arquitetura original. Ao contrário, funciona como instrumento para ampliar a compreensão sobre tudo aquilo que está diante dos olhos.
Ao final do percurso, permanece a sensação de ter participado de algo maior do que uma simples visita a um museu. É como entrar em uma máquina do tempo e, durante algumas horas, caminhar por diferentes capítulos da vida de Candido Portinari, conhecendo suas origens, seus afetos, suas inquietações, sua dedicação à arte e a dimensão do legado que deixou para o país.
Visitar a Casa de Portinari, em Brodowski, é uma experiência que vale a viagem. É um encontro com a história, com a arte e com a cultura brasileira capaz de emocionar, ensinar e despertar reflexão. Mais do que conhecer onde viveu um grande pintor, o visitante sai dali compreendendo melhor o homem por trás das obras e a profunda ligação que manteve com sua família, suas raízes e o Brasil.
É uma viagem ao passado realizada com os recursos do presente e, sobretudo, uma oportunidade de conhecer um patrimônio que ajuda a dimensionar a riqueza cultural do país e que é capaz de encher de orgulho qualquer brasileiro.
PAULO VITOR DE CAMPOS
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