Um estudo publicado pela revista The Lancet acende um sinal vermelho para o mundo: a vacinação infantil contra doenças graves está em queda acelerada em mais de 100 países. A situação, que já era preocupante, foi agravada pela pandemia de covid-19 e seus efeitos colaterais – como a interrupção de campanhas de vacinação, o aprofundamento das desigualdades econômicas e, especialmente, a disseminação de desinformação sobre os efeitos das vacinas.
Desde 2020, milhões de crianças deixaram de ser imunizadas contra enfermidades como sarampo, tuberculose e poliomielite. O impacto é visível: o risco de surtos dessas doenças, que já haviam sido controladas ou até erradicadas em diversas regiões, voltou a crescer. A própria União Europeia registrou quase dez vezes mais casos de sarampo em 2024 do que no ano anterior.
O principal autor do estudo – vinculado ao Instituto de Métricas e Avaliações de Saúde (IHME) da Universidade de Washington – reforça que a vacinação infantil de rotina é uma das medidas mais eficazes e econômicas de saúde pública. No entanto, o mundo está falhando em garantir essa proteção básica. Em 2023, quase 16 milhões de crianças não receberam nenhuma dose de vacina, concentradas sobretudo na África Subsaariana e no sul da Ásia.
Não se trata apenas de um problema dos países em desenvolvimento. A pesquisa alerta também para a queda das coberturas vacinais em países ricos como Estados Unidos e membros da União Europeia. A combinação entre desinformação, hesitação vacinal e negligência institucional está minando décadas de progresso em saúde pública.
A volta da poliomielite, com novos casos reportados no Paquistão, Afeganistão e uma epidemia em Papua-Nova Guiné, é um símbolo claro desse retrocesso. O mundo não pode assistir passivamente à volta de doenças evitáveis por vacinas seguras e eficazes.
É hora de os governos, as organizações internacionais e a sociedade civil se unirem em campanhas firmes e baseadas em ciência, combatendo a desinformação e retomando a confiança da população na vacinação. Deixar milhões de crianças vulneráveis não é apenas um erro técnico: é uma tragédia humana em construção.