A nova ofensiva do presidente Donald Trump contra o Brasil, ao classificá-lo como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos Estados Unidos, inaugura um perigoso capítulo nas já tensas relações entre os dois países. O que começou como uma disputa comercial — com a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — agora ganha contornos ideológicos e geopolíticos ainda mais inflamados, numa tentativa clara de transformar o Brasil em inimigo útil na narrativa eleitoral norte-americana.
A justificativa oficial da Casa Branca é recheada de retórica alarmista, acusando o governo brasileiro de “coagir, de forma tirânica e arbitrária, empresas americanas” do setor digital. Na prática, trata-se de reações a medidas brasileiras que buscam regular as plataformas digitais, conter a disseminação de fake news e garantir que essas empresas prestem contas à Justiça — algo que, ironicamente, também é objeto de debate interno nos próprios Estados Unidos. Mas Trump prefere o embate, não o diálogo, e vê na demonização de adversários externos uma estratégia eficaz para mobilizar sua base política.
Do lado brasileiro, a situação não é menos preocupante. O governo se mostra desarticulado, com falhas graves na diplomacia internacional e um presidente mais interessado em calcular os impactos eleitorais do episódio do que em liderar uma resposta firme e pragmática. A ausência de um plano concreto para mitigar os danos comerciais impostos pelas novas tarifas escancara a fragilidade da política externa brasileira e sua dependência de improvisos.
É evidente que o Brasil atravessa um momento delicado no campo da regulação digital, onde o equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade online continua sendo uma zona cinzenta.
O episódio revela muito mais sobre a política de Donald Trump do que sobre qualquer suposta ameaça brasileira. Em tempos de campanha, a construção do inimigo externo é um velho truque, e o Brasil foi escolhido como o bode expiatório da vez. A diplomacia brasileira precisa reagir com seriedade, firmeza e foco no interesse nacional — o que exige mais do que slogans e bravatas: exige estratégia.