Poços de Caldas, MG – A Polícia Civil de Minas Gerais deflagrou, na manhã desta quarta-feira (13), a Operação Castelo de Cartas, que desmonta um esquema milionário de venda fraudulenta de terrenos do Distrito Industrial envolvendo um ex-servidor de confiança da Prefeitura de Poços de Caldas.
O alvo principal é Hugo Ribeiro do Rego, 48 anos, que exerceu cargos estratégicos durante os dois mandatos do ex-prefeito Sérgio Azevedo, passando pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Inovação (Sedet), Secretaria de Comunicação e, mais recentemente, como diretor na Secretaria de Turismo. Ele está preso preventivamente.
Sua filha, de 26 anos, que também é apontada como beneficiária do esquema, foi colocada em prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. Ambos foram detidos no bairro Jardim Vitória, onde também foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão.
Origem da investigação
O delegado Clayson Rodrigo Brene, responsável pelo inquérito, informou que a investigação começou no início de 2025, após uma denúncia formal apresentada pela Procuradoria do Município. Empresários procuraram a Sedet para saber o andamento dos processos de doação de terrenos e descobriram que nenhum procedimento existia.
“Quando essas vítimas foram até a secretaria, o atual gestor informou que não havia qualquer processo em curso. A Procuradoria, então, nos acionou formalmente, dando início à investigação”, explicou o delegado.
Como funcionava o golpe
Segundo a Polícia Civil, Hugo abordava empresários interessados em se instalar no Distrito Industrial e dizia que, para agilizar a doação dos terrenos — dentro do programa municipal Avança Poços —, era preciso pagar uma “contrapartida”.
Os valores exigidos variavam entre R$ 100 mil e R$ 1,8 milhão, pagos via Pix para contas dele ou da filha, além de cheques. Para sustentar o golpe e manter as vítimas acreditando na legalidade do processo, o ex-servidor produzia atas falsas do Conselho Municipal, copiando formato, timbre e linguagem oficial.
Três empresas já foram confirmadas como vítimas — dos setores de construção e mineração — com pagamentos de R$ 100 mil, R$ 250 mil e R$ 1,8 milhão. Parte do dinheiro foi destinada a obras particulares e à abertura de empresas em nome da filha, incluindo uma choperia na cidade.
Atuação após deixar o cargo
Mesmo após sair da Sedet, em 2023, Hugo continuou atuando e sendo indicado como contato para tratar da doação de terrenos. Isso, segundo o delegado, reforça a suspeita de uma rede criminosa.
“Ele deixou a Prefeitura em 31 de dezembro de 2024, mas continuou exercendo influência. Por isso, não descartamos a participação de outros envolvidos”, disse Clayson.
Lavagem de dinheiro e novas fases
As investigações apontam para indícios de lavagem de dinheiro por meio de empresas abertas em nome de terceiros. A Polícia Civil já rastreou cheques depositados, identificando o destino de parte dos valores
A próxima fase do inquérito deve ampliar o foco para apurar o crime de lavagem e possíveis conexões com outros servidores ou ex-servidores. A escolha do nome “Castelo de Cartas” remete à estrutura do golpe, que começou a ruir após a primeira denúncia.
Provas apreendidas
Durante a operação, foram apreendidos:
Celulares; Notebook; Documentos e atas falsas; Comprovantes de transferências e cheques.
O material será analisado pela agência de inteligência da Polícia Civil.
Possíveis penas
Hugo e a filha respondem por: Corrupção passiva; Estelionato; Uso de documento falso; Associação criminosa.
Somadas, as penas podem ultrapassar 30 anos de prisão.
“Acreditamos que outras vítimas aparecerão. Já temos indícios de que o golpe aconteceu de 2022 a 2024, e que os pagamentos continuaram mesmo após ele deixar o cargo”, afirmou o delegado.
Nota da Prefeitura
“O Município de Poços de Caldas informa que tem conhecimento da prisão, ocorrida nesta terça-feira, 13 de agosto de 2025, de um ex-agente público. Esclarece que, a partir de denúncias apresentadas por empresa eventualmente prejudicada, adotou imediatamente as providências cabíveis, acompanhando a situação junto às autoridades competentes.
Ressalta-se que os fatos ocorreram à revelia do conhecimento interno e sem qualquer participação ou anuência da Administração Municipal.
A Prefeitura reafirma seu compromisso com a legalidade, a ética e a transparência na gestão pública, e permanece à disposição para colaborar com as investigações em curso.”
PAULO VITOR DE CAMPOS
pvcampos@gmail.com