O anúncio do governo federal de que o salário mínimo será de R$ 1.621 em 2026, um reajuste de R$ 103 sobre o valor atual, reafirma a política de correção baseada na inflação acumulada somada ao crescimento do PIB. Embora a metodologia represente um avanço em relação ao período em que o piso era reajustado apenas pela inflação, ela ainda está longe de garantir que o trabalhador consiga prover, com dignidade, as necessidades básicas de sua família.
A constatação vem do próprio mercado e de entidades que monitoram o custo de vida no país. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo necessário em setembro de 2025 deveria ser de R$ 7.075,83 para assegurar padrões mínimos de moradia, saúde, educação, transporte, lazer e alimentação.
A comparação entre o mínimo oficial e o mínimo necessário escancara uma realidade incompatível com a promessa de mobilidade social e redução das desigualdades. Enquanto a economia dá sinais moderados de recuperação, o poder de compra dos trabalhadores segue comprimido, especialmente diante do encarecimento da cesta básica em capitais como São Paulo — parâmetro utilizado pelo estudo.
O reajuste anunciado pelo governo evita perdas reais e impede que o salário mínimo retroceda, mas está longe de resolver o principal problema: o Brasil ainda não produz renda suficiente — ou não a distribui suficientemente bem — para que o piso salarial cumpra sua função constitucional de garantir dignidade ao trabalhador.
O debate sobre o salário mínimo precisa ir além do índice de correção. Ele exige uma discussão séria sobre produtividade, investimentos, reforma tributária progressiva, combate à informalidade e fortalecimento das políticas públicas que aliviem o custo de vida. Sem isso, o país continuará preso ao paradoxo de celebrar reajustes que, embora positivos, permanecem insuficientes para enfrentar o tamanho do desafio social.