O chamado “Brasil comercial” costuma dividir o calendário em dois períodos muito claros: antes e depois do Carnaval. A expressão popular de que “o Brasil só começa a trabalhar depois do Carnaval” atravessa décadas e, de certa forma, reflete uma percepção cultural profundamente enraizada no país.
Mas o que há de mito e o que há de realidade nessa ideia?
É fato que o Carnaval provoca uma grande movimentação popular e reorganiza a rotina nacional. Embora não seja oficialmente um feriado nacional prolongado em todos os dias, na prática o país desacelera. Repartições públicas funcionam em regime especial, empresas ajustam turnos, o mercado financeiro adapta seus horários e o comércio reorganiza suas escalas. O Brasil não para completamente, mas muda de ritmo.
Por outro lado, o impacto econômico da festa é inegavelmente relevante — e, em muitos casos, positivo. O Carnaval movimenta bilhões de reais em setores como turismo, hotelaria, alimentação, transporte, eventos, comércio informal e indústria cultural. Cidades turísticas vivem um verdadeiro “13º salário” em poucos dias. Destinos consolidados e municípios que investem na folia colhem resultados expressivos em ocupação hoteleira, geração de renda temporária e fortalecimento da marca turística.
A indústria também já se adaptou ao calendário. Produção, estoques e entregas são planejados considerando esse período. O mercado financeiro, cada vez mais globalizado e digital, mantém operações que não dependem exclusivamente do calendário carnavalesco. Ou seja, a economia moderna aprendeu a conviver com a tradição.
O desafio, portanto, não é escolher entre tradição e produtividade. É fazer com que ambas coexistam de forma inteligente. O Carnaval é parte da identidade cultural brasileira, patrimônio simbólico que projeta o país internacionalmente. Ao mesmo tempo, exige planejamento para que seus efeitos sejam potencializados e não comprometam o desempenho econômico do restante do ano.
Se é verdade que muitos projetos, decisões e retomadas de agendas costumam ganhar impulso após a Quarta-feira de Cinzas, que esse recomeço simbólico venha acompanhado de mais organização, mais eficiência e mais crescimento.
Que, se o Brasil começa depois do Carnaval, comece com mais responsabilidade, mais planejamento e, principalmente, com um ano economicamente melhor para todos.