O Brasil assiste ao avanço de uma modalidade criminosa que cresce longe das ruas, invade celulares, computadores e contas bancárias e atinge pessoas de todas as idades e classes sociais. Em 2025, foram registrados 2,2 milhões de estelionatos no país, aumento de 429,8% em relação a 2018, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Na prática, um golpe ocorreu a cada 14 segundos.
O dado revela uma mudança significativa no perfil da criminalidade. Enquanto homicídios, latrocínios e roubos com violência apresentaram queda, os criminosos passaram a explorar com maior intensidade o ambiente digital. Falsas centrais bancárias, links fraudulentos, clonagem de contas, vendas inexistentes e pedidos de dinheiro em nome de familiares tornaram-se parte de uma indústria cada vez mais organizada.
A expansão dos golpes acompanha a digitalização acelerada da vida cotidiana. Serviços públicos, operações bancárias, compras e relacionamentos migraram para aplicativos, mas a educação para o uso seguro dessas ferramentas não avançou na mesma velocidade. Idosos e pessoas com pouca familiaridade tecnológica estão entre os alvos mais vulneráveis, embora ninguém esteja completamente protegido.
Também preocupa a sensação de impunidade. As quadrilhas podem atuar de qualquer lugar, utilizar contas de terceiros e apagar rapidamente seus rastros. Para enfrentar essa realidade, é indispensável ampliar a capacidade de investigação das polícias, integrar bancos, operadoras e plataformas digitais e acelerar o bloqueio de valores transferidos em operações fraudulentas.
As instituições financeiras e as empresas de tecnologia não podem transferir toda a responsabilidade para o consumidor. Sistemas capazes de identificar movimentações atípicas, impedir transações suspeitas e dificultar a abertura de contas usadas por criminosos precisam ser constantemente aperfeiçoados. Prevenir fraudes também deve ser uma obrigação de quem oferece os serviços.
Os 2,2 milhões de registros representam mais do que prejuízos financeiros. São famílias que perdem economias, idosos enganados e cidadãos que passam a desconfiar de ferramentas essenciais. O estelionato deixou de ser um crime ocasional para se transformar em uma epidemia silenciosa.