A proximidade das eleições de 2026 traz novamente ao centro do debate público uma ameaça que se tornou mais sofisticada: a produção de conteúdos falsos por meio da inteligência artificial. Vídeos, áudios e imagens manipulados alcançaram tamanho grau de realismo que, em muitos casos, conseguem enganar até mesmo usuários experientes.
Os números demonstram a dimensão do problema. Pesquisa Super Panorama Mobile Time/Opinion Box revela que 70,2% dos internautas já acreditaram em vídeos que posteriormente descobriram ser falsos. Apenas 18,7% afirmam reconhecer imediatamente um conteúdo falso, enquanto 72,1% percebem sinais de manipulação somente em determinadas situações. Isso significa que a grande maioria da população permanece vulnerável a conteúdos fabricados para parecer verdadeiros.
Essa fragilidade se torna ainda mais preocupante durante uma campanha eleitoral. Uma declaração falsa atribuída a um candidato, um áudio artificial divulgado poucas horas antes da votação ou uma imagem retirada de contexto podem provocar danos difíceis de reparar. Mesmo quando a falsificação é desmentida, o conteúdo original pode continuar circulando e influenciando a percepção dos eleitores.
O problema não está na inteligência artificial em si. A tecnologia oferece benefícios importantes para a educação, a saúde, a comunicação, a ciência e diferentes atividades econômicas. O risco surge quando ferramentas poderosas são utilizadas deliberadamente para enganar, atacar reputações e interferir na livre formação da vontade popular.
O ambiente digital brasileiro já apresenta sinais claros de deterioração. Segundo o Panorama da Desinformação no Brasil, elaborado pelo Observatório Lupa, houve crescimento de 308% na circulação de desinformação entre 2024 e 2025.
Diante desse cenário, não basta transferir toda a responsabilidade ao eleitor. As plataformas digitais precisam aperfeiçoar os mecanismos de detecção, identificar conteúdos produzidos artificialmente e agir rapidamente diante de materiais fraudulentos. Partidos, candidatos e apoiadores devem assumir compromisso público de não utilizar recursos tecnológicos para manipular fatos ou adversários. As autoridades eleitorais, por sua vez, precisam garantir fiscalização ágil e punições proporcionais, especialmente quando houver intenção de interferir no processo de escolha.
Ao cidadão cabe adotar uma postura mais cuidadosa. Conteúdos alarmantes, declarações surpreendentes e vídeos que despertam indignação imediata devem ser recebidos com prudência.
As eleições devem ser decididas por propostas, trajetórias e fatos, não por imagens inventadas ou vozes artificialmente reproduzidas.