A pesquisa Adolescência Sem Filtro, encomendada pelo Instituto Alana, traz uma mensagem que merece atenção: os adolescentes não desejam o fim da internet, mas reconhecem que o ambiente virtual precisa mudar. Segundo o levantamento, 71% dos entrevistados defendem a continuidade da rede com modificações, enquanto apenas 9% acreditam que ela deveria deixar de existir.
Os números afastam a ideia de que os jovens sejam usuários passivos, incapazes de perceber os riscos presentes nas plataformas digitais. Ao contrário, revelam uma geração consciente das vantagens e dos problemas desse universo. A internet representa diversão para 71% dos entrevistados, desperta felicidade em 63% e curiosidade em 55%. É um espaço de convivência, aprendizagem, expressão e acesso à informação.
Entretanto, essa experiência positiva convive com conteúdos inadequados, discursos de ódio, desinformação, violência, padrões inalcançáveis de comportamento e mecanismos desenvolvidos para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível. Os próprios adolescentes percebem que sua atenção se tornou um produto disputado por plataformas que lucram com cada minuto adicional passado diante da tela.
É significativo, portanto, que 49% atribuam às plataformas a responsabilidade pela construção de uma internet melhor e que 43% defendam maior controle sobre essas empresas. A cobrança é legítima. Não se pode transferir exclusivamente às famílias, às escolas e aos próprios jovens o dever de enfrentar riscos criados ou ampliados por modelos de negócio baseados no engajamento permanente.
As empresas de tecnologia devem oferecer ferramentas de proteção eficientes, transparência sobre seus algoritmos, controle adequado de conteúdos e canais rápidos para denúncias. Também precisam impedir que crianças e adolescentes sejam expostos deliberadamente a materiais nocivos ou conduzidos a um consumo digital compulsivo.
A pesquisa mostra que os adolescentes têm senso crítico e querem participar desse debate. Suas opiniões não podem ser ignoradas na elaboração de políticas públicas ou na regulamentação das plataformas. Afinal, são eles que vivenciam diariamente os benefícios e os efeitos negativos desse ambiente.
A escolha não deve ser entre uma internet sem limites e uma geração desconectada. O caminho está na construção de um espaço digital mais seguro, transparente e saudável. Se os próprios jovens já reconhecem a necessidade de mudança, cabe aos adultos, às empresas e ao poder público assumir a parcela de responsabilidade que lhes pertence.