Poços de Caldas, MG – Depois de mais de duas décadas de paralisação, o futuro do monotrilho voltou ao centro das discussões em Poços de Caldas. Uma audiência pública realizada nesta quarta-feira (16), na Câmara Municipal, reuniu representantes do Executivo, vereadores, profissionais de diferentes áreas e cidadãos para debater alternativas para a estrutura que atravessa parte da cidade e permanece sem utilização.
O encontro deixou um encaminhamento concreto: o Município assumiu, por meio de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público de Minas Gerais, o compromisso de demolir, até 31 de dezembro de 2028, uma primeira parte da estrutura, abrangendo o trecho do Terminal de Linhas Urbanas até a região da Urca e do Museu.
Ao mesmo tempo, o restante do monotrilho ainda poderá ser objeto de estudos para eventual reaproveitamento. Durante a audiência foram apresentadas propostas envolvendo tecnologia, cultura, geração de energia, pesquisa, paisagismo e novos usos urbanos.
Reativação esbarra nos custos
Um dos pontos abordados foi a possibilidade de o monotrilho voltar a operar como originalmente concebido. O secretário municipal de Obras, Paulo Henrique Gonçalves Ribeiro, lembrou que estudos já foram realizados para avaliar uma possível reativação com novas tecnologias. Segundo as informações apresentadas na audiência, uma avaliação anterior apontou custo superior a R$ 10 milhões, o que foi considerado elevado diante da capacidade financeira do Município.
Paulo Henrique afirmou que, nas atuais condições, a reativação é inviável para a Prefeitura. Apesar disso, destacou que a estrutura de concreto já foi objeto de laudo e que a avaliação realizada apontou estabilidade, afastando, segundo ele, risco de colapso nas condições examinadas pelo estudo.
O debate, portanto, não se limita mais a duas possibilidades – reativar integralmente ou demolir tudo. Parte dos participantes defendeu que determinados segmentos possam receber novas funções, desde que estudos técnicos comprovem a viabilidade.
Demolição já está sendo estudada
A Secretaria Municipal de Planejamento informou que já realizou um diagnóstico para a retirada do trecho compreendido entre o Museu e o Terminal de Linhas Urbanas. O levantamento considera a complexidade da operação, incluindo interferências com árvores, vias públicas, teleférico e outros elementos existentes no trajeto.
Ainda não há, entretanto, um valor definitivo divulgado para a obra. A Prefeitura reconheceu durante a audiência que qualquer alternativa terá impacto financeiro significativo, começando pela elaboração dos projetos necessários.
Segundo os representantes do Executivo, estão sendo realizados levantamentos e orçamentos relacionados à demolição. A Administração também reconheceu as limitações financeiras atuais do Município e afirmou que os custos constituem um dos principais pontos a serem equacionados.
TAC determina primeira etapa
O procurador-geral do Município, Thiago Arantes Ramalho, explicou que a obrigação de apresentar uma solução deixou de ser apenas uma intenção administrativa. O Município firmou TAC com o Ministério Público no âmbito de inquérito civil relacionado às condições da estrutura.
O acordo prevê estudos de viabilidade, avaliações, projetos executivos e outras providências. A principal determinação apresentada durante a audiência é a retirada, até o final de 2028, da estrutura localizada no entorno do complexo histórico e hidromineral.
O trecho passa pelas proximidades de importantes bens e espaços da região central, entre eles Palace Hotel, Termas Antônio Carlos, Palace Casino, Prefeitura, Urca e Museu. A demolição foi apresentada como a primeira etapa executiva do acordo.
Prefeitura mantém reuniões semanais
A discussão sobre o futuro do equipamento já integra a rotina da Administração. De acordo com os representantes do Executivo, equipes das áreas de Planejamento e Obras vêm realizando reuniões às terças-feiras para tratar especificamente do monotrilho, incluindo estudos técnicos, projetos e viabilidade econômica.
Paulo Henrique classificou a estrutura atualmente paralisada como um problema que precisa ser enfrentado pelo poder público. “O poder público tem a obrigação de achar uma solução.”
O secretário acrescentou que a Administração está trabalhando para avançar nas definições até 2028, embora tenha ressaltado os custos envolvidos e a necessidade de estudos antes da execução das intervenções.
Diferentes propostas para o trecho restante
A audiência também mostrou que não existe consenso sobre o destino de toda a estrutura. O engenheiro agrônomo e gestor ambiental Gabriel Tarquinio Bertozzi apresentou o conceito “Monotrilho Plural”, propondo transformar partes da estrutura em um eixo de tecnologia, inovação e cultura urbana. A ideia considera participação privada, universidades, fontes externas de financiamento e possíveis aplicações relacionadas à energia e ao meio ambiente.
O advogado e escritor Flávio de Matos Peres apresentou proposta para transformar o monotrilho em uma espécie de laboratório tecnológico a céu aberto, direcionado a pesquisas sobre mobilidade sustentável, eficiência energética, inteligência artificial aplicada ao transporte, sensores e outras tecnologias.
João Ricardo Araújo de Oliveira sugeriu preservar partes da estrutura e utilizá-las para arte, cultura, educação, turismo, painéis e geração de energia solar. Já a representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Geórge a Haddad, defendeu avaliação estrutural, participação popular e até a realização de concurso de ideias para definir novos usos.
A professora Adriane Matthes trouxe ao debate uma abordagem urbanística e ambiental, defendendo maior valorização dos rios, da mata ciliar e das chamadas soluções baseadas na natureza no planejamento do futuro da Avenida João Pinheiro.
Estrutura original recebeu críticas técnicas
Um dos depoimentos de maior conteúdo histórico foi apresentado pelo engenheiro Cícero Machado de Moraes, que participou da comissão de licitação do monotrilho e acompanhou diferentes etapas do empreendimento.
Ele relatou alterações realizadas ao longo da implantação e problemas relacionados aos sistemas de tração, alimentação elétrica e segurança. Cícero ressaltou que qualquer eventual aproveitamento precisaria considerar essas limitações e passar por avaliações técnicas, evitando tratar a estrutura existente como se estivesse pronta para voltar à operação.
Dinheiro é um dos maiores obstáculos
Além das questões técnicas e urbanísticas, o financiamento apareceu repetidamente na audiência.
Representantes do Executivo ressaltaram que tanto a demolição quanto qualquer projeto de reaproveitamento demandarão recursos expressivos. Há custos com projetos estruturais, reforços, instalações elétricas, paisagismo, segurança, trânsito e execução das obras.
Também foi levantada na Câmara a inexistência, atualmente, de dotação orçamentária específica suficiente para executar uma intervenção de grande porte no monotrilho, o que abriu discussão sobre a origem dos recursos necessários.
O procurador Thiago Arantes mencionou, nesse contexto, a possibilidade de participação de mecanismos privados de financiamento, ressaltando que uma intervenção dessa dimensão dificilmente dependerá exclusivamente da capacidade de investimento do poder público.