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Restauração do túmulo de Miss Tamara resgata história e mistério em Poços de Caldas

Data da Publicação:

30/10/2026

Poços de Caldas, MG – Uma solenidade realizada na manhã de quarta-feira (28), no Cemitério Municipal de Poços de Caldas, marcou a restauração do túmulo de Miss Tamara, também conhecida como Princesa Anastásia Romanov, personagem envolvida em uma das histórias mais curiosas e misteriosas da cidade.
A iniciativa foi promovida pelo grupo de idosos “Velhinhos da Praça Pedro Sanches”, com o objetivo de preservar a memória de uma mulher cuja trajetória despertou interesse e curiosidade entre moradores e pesquisadores da história local.
A cerimônia, marcada para as 9h, representou uma homenagem à memória de Miss Tamara e à importância da preservação do patrimônio histórico e cultural de Poços de Caldas.
A personagem ficou conhecida por sua suposta ligação com a família imperial russa, especialmente com a história da grã-duquesa Anastásia Romanov, filha do último czar da Rússia, Nicolau II. A narrativa, cercada de mistérios e especulações, contribuiu para transformar Miss Tamara em uma figura singular da memória poços-caldense. Entretanto, não há comprovação histórica de que ela fosse integrante da família Romanov.

Preservação da memória
A restauração do túmulo representa uma iniciativa de valorização da história local, permitindo que novas gerações conheçam personagens que, de alguma forma, marcaram a trajetória do município.
O evento também destacou a importância do envolvimento da comunidade na preservação de espaços históricos, especialmente aqueles que guardam histórias e acontecimentos ligados ao passado da cidade.
A iniciativa da solenidade foi assinada pelos jornalistas Odair Camillo e Roberto Tereziano, que destacaram o significado da homenagem à mulher que viveu em Poços de Caldas e permaneceu envolvida em uma das narrativas mais fascinantes da história local

A história
Confira abaixo artigo do jornalista Roberto Tereziano contando a história do jazigo.

CAPÍTULO1:
O Jazigo das Duas Russas
Já se ouviu falar de segredos levados para o túmulo. Porém, nem lá, sob o peso do mármore e da terra, eles estão hermeticamente protegidos. O silêncio dos cemitérios é enganoso; ele sussurra para quem sabe ouvir.
Num rápido levantamento pelos túmulos históricos do cemitério de Poços de Caldas, é impossível não se deixar capturar pelo jazigo mais misterioso do local. Ali, repousam duas mulheres que carregam o eco da nobreza russa: a princesa Tamara Gagarin e sua companheira, a grã-condessa Alexandra Tatchev. O jazigo, encomendado pela própria Miss Tamara, recebeu primeiro o corpo da grã-condessa — uma espécie de mãe-governante que cuidava da jovem princesa. Sendo mais velha, partiu antes, deixando a protegida em um exílio silencioso.
Os Tatchev formavam uma linhagem poderosa que servia diretamente os Romanov. O pai da grã-condessa fora um militar tão visceralmente fiel ao último Czar que, mesmo após a queda do Império Russo, preferiu a execução a abandonar a família imperial. Mas é aqui que a história racha, dando lugar ao abismo da dúvida.
Ao pesquisar os registros oficiais, descobre-se que a tal “Princesa Tamara” se esconde atrás de um nome fictício. Não existe na história russa tal linhagem ligada aos Romanov que justificasse uma fuga atabalhoada mundo afora. Quem era ela de verdade? Seria Tamara, na verdade, a própria Anastácia — a filha sobrevivente do Czar?
Dizem que os testes de DNA esclareceram o caso Anastácia. Mas o que pode realmente revelar o DNA de corpos que foram amontoados juntos os corpos dos Romanov e seus serviçais e filhos. dilacerados por ácidos e queimados por quase um século? E confiável um exame de DNA de partículas de carvão?
A foto de Miss Tamara no túmulo funciona como uma espécie de Gioconda de Leonardo da Vinci, ostentando leve e enigmático sorriso que guarda mistérios nos recônditos na sepultura. No entanto, o mistério da Rússia imperial não estava sozinho naquele pedaço de terra.
Ao procurando os a foto da enigmática da princesa russa a partir de uma greta da quadra exatamente em frente, o cenário muda drasticamente, revelando uma conexão impossível.
Estou no túmulo de uma escravizada que, talvez poderia ter sido uma princesa africana, mas aqui foi apenas a Mãe Preta. (continua)

Capítulo 2:
A Linha Vermelha de Frauzina
Na quadra em frente ao tumulo das duas russas, ergue-se um enigma que, aparentemente, nada tem a ver com a família do Czar Romanov, sendo inexplicável por si só. No dístico simples, há apenas um nome cravado: Frauzina, “Mãe Preta”. (sem sobrenome)
A primeira pergunta brota imediata e desconfortável. Uma mulher escravizada sem sobrenome é algo comum na trágica história da escravidão no nosso país. Mas uma mulher negra, sepultada há dezenas de anos, com a nobreza e o privilégio de possuir um túmulo próprio — mesmo que simples —, no setor histórico do cemitério, é algo completamente fora do padrão.
Para se ter uma ideia da anomalia, o jazigo do Herculano Cintra, o homem responsável pela primeira e maior festa popular de poços de Caldas, a festa de São Benedito na cidade, simplesmente desapareceu com o tempo; outras pessoas e outros túmulos ocupam hoje o seu lugar. Como, então, o túmulo de Frauzina permaneceu intacto? Porque não se sabe quem pagou pelo túmulo?
Quem seria a tal Mãe Preta? Nos arquivos oficiais do cemitério, há um vácuo absoluto. Não há registro de óbito detalhado, certidão e, mais intrigante ainda, nenhuma pista sobre a identidade de quem mandou e pagou pela construção daquele jazigo. Seria ela uma realeza esquecida? Uma princesa d’além-mar, arrancada de sua África natal para se tornar apenas uma mãe de terreiro em um país distante?
Tudo o que se conseguiu apurar é que Frausina veio de uma fazenda da região, por volta dos anos de 1940. O silêncio e o segredo se encontram ali, na terra fria.
Parado, estático diante do túmulo de Frauzina, percebo uma estranha coincidência geométrica. Olhando por um pequeno e estreito vão que se forma entre os jazigos vizinhos, minha linha de visão cruza o cemitério e foca exatamente na foto distante de Miss Tamara. Elas se entre-olham no tempo.
Decidido a buscar mais sinais daquela simetria macabra, dou um passo para trás e me viro. É quando meus olhos batem em um jazigo de mármore preto, cujo nome gravado faz meu sangue congelar. Quem está sepultada em frente a escravizada e na linha visível para o túmulo das russas? Uma Sinhá Junqueira… (continua)

Capítulo 3:
A Outra Face do Espelho
Quase em frente ao túmulo simples da Mãe Preta, ergue-se um jazigo imponente em mármore escuro, encimado por uma escultura em bronze do rosto de Jesus Cristo com sua coroa de espinhos. A placa de bronze chama a atenção pela precisão do nome: Inácia Frauzina Junqueira.
O choque do nome idêntico não é mero acaso. A inscrição não diz “Mãe Branca”, mas os fios invisíveis da história começam a se amarrar. Inácia pertencia à influente família do sesmeiro, da Serra do Selado. Os indícios apontam que foi daquela mesma fazenda que, anos antes, o corpo da a Mãe Preta havia sido transladado.
Uma teoria incômoda ganha força: talvez a Mãe Preta tenha sido a verdadeira mãe dos filhos de Inácia, amamentando e criando a linhagem daquela aristocracia rural. Talvez resida aí o segredo de ela ter recebido um túmulo próprio e digno na cidade, em vez de ser sepultada no esquecido cemitério de escravizados da fazenda. Uma dívida de sangue e afeto paga no pós-morte.
Aparentemente, não há qualquer elo lógico entre Anastácia (a suposta princesa russa), sua governanta Alexandra Tatchev, a aristocrata Inácia Junqueira e a escravizada Frauzina. São mundos, épocas e dores completamente diferentes, sepultadas a poucos metros de distância.
No entanto, a mente humana busca padrões no caos, e uma coincidência mística começa a costurar essas quatro mulheres. Na Rússia czarista, a santa protetora da dinastia Romanov — a quem o pai de Alexandra Tatchev serviu até a morte — era a famosa Black Madonna (Nossa Senhora Negra), uma imagem escurecida do período bizantino. No Brasil, a padroeira e protetora dos aflitos é, também, uma imagem negra e milagrosa.
Seria a Mãe Preta o elo místico inconsciente que ligava aquele cemitério à dor das mulheres russas?
Busco respostas na escultura de bronze acima de Inácia. Olho fixamente para o rosto torturado de Cristo. O que sabe ele dos segredos dessas mulheres? Sinto um arrepio na espinha ao notar o ângulo da estátua. Jesus não olhava para o céu, nem para o chão. Seus olhos de bronze pareciam apontar para um ponto muito específicos de minhas indagações. (continua)

Capítulo 4:
O Veredito do Silêncio
Sob o olhar fixo da escultura de Cristo, sinto o peso da atmosfera do cemitério mudar. Lembram-me, com uma força avassaladora, os versos inquisitores do poeta: “Senhor, onde estás que não respondes?”
O vento passa entre as frestas dos túmulos, trazendo o eco de quatro vidas marcadas pela fuga, pelo rápto, pela mentira protetora, pela escravidão e pelo privilégio velado. Anastácia ou Tamara? Frauzina a ama de leite esquecida? Ou uma ipotética princesa africana? Quatro mulheres, duas nobres e duas ligadas à terra, divididas por oceanos de distância em vida, mas unidas por uma vizinhança eterna e misteriosa na morte.
Se as pedras falassem, o mundo talvez não suportasse a verdade sobre a linhagem perdida dos Romanov ou sobre os segredos de alcova e sangue das fazendas de café do Selado. Mas as pedras não falam. Elas apenas guardam.
Focado na lenda e na verdade, entre o mito e a realidade, o tempo escolheu o silêncio.
Caminho em direção à saída, mas algo me faz parar uma última vez antes dos portões. Coloco a mão no bolso e percebo que, durante a investigação nos arquivos que fiz mais cedo, um papel dobrado havia caído da pasta. Eu não o tinha lido com atenção. Ao desdobrá-lo sob a luz fraca do entardecer, meus olhos encontram uma única linha anotada à caneta que muda completamente a interpretação de tudo o que acabei de ver.
O mistério não havia terminado. Ele estava apenas começando: SER OU NÃO SER? EIS A QUESTÃO.

 

 

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