Todos os anos, quando chega setembro, somos lembrados da importância de falar sobre suicídio. O mês amarelo se veste de esperança, de campanhas e de frases de impacto que circulam pelas redes sociais. Mas há um grupo que, muitas vezes, permanece nas sombras desse debate: as pessoas idosas. E é justamente entre elas que o suicídio assume proporções silenciosas e devastadoras.
Envelhecer, em nossa sociedade, ainda é tratado como sinônimo de perda: da vitalidade, da autonomia, da utilidade social. Muitas pessoas idosas carregam no corpo as marcas do tempo, mas é na alma que se instalam as feridas mais profundas — a solidão, o sentimento de abandono, o medo de ser um peso.
Um dos maiores desafios clínicos para a prevenção do suicídio em idosos é o diagnóstico: não raramente, a depressão em idosos é confundida com demência. Não raro, escutamos discursos que reforçam a ideia de que “na idade deles é normal estar triste, desanimado, sem vontade”. Esse olhar reducionista ignora que, muitas vezes, o que está por trás é uma depressão não diagnosticada, uma dor psíquica real e avassaladora, que pode ser tratada. Essa confusão atrasa a busca por ajuda e aumenta o risco de desfechos trágicos.
Estudos sinalizam que o suicídio não acontece por uma única causa, mas pela sobreposição de fatores emocionais, sociais e biológicos. No caso das pessoas idosas, a perda de vínculos, a aposentadoria, o luto e o preconceito contra o envelhecimento — o chamado idadismo — são gatilhos poderosos. Quando uma pessoa idosa sente que já não tem mais espaço de pertencimento, que sua voz não é escutada e que sua vida deixou de ter sentido, o risco aumenta de forma dramática.
É justamente aí que nossa responsabilidade coletiva entra em cena. Prevenir o suicídio de pessoas idosas não é apenas tarefa da psicologia ou da medicina; é tarefa de todos nós. É preciso reaprender a conviver com os mais velhos, devolver-lhes o lugar de valor que sempre tiveram, escutar suas histórias, convidá-los a participar das decisões familiares e reconhecer que eles continuam sendo protagonistas de suas próprias vidas.
A verdade é que o suicídio entre pessoas idosas revela não apenas um sofrimento individual, mas um fracasso social em oferecer a essa fase da vida dignidade, afeto e sentido. Setembro Amarelo não pode ser apenas sobre dizer “falar é a melhor solução”. É também sobre escutar — escutar de verdade, sem pressa, sem julgamento, com a disposição de acolher o que muitas vezes não conseguimos entender.
Se quisermos reduzir as estatísticas e, mais do que isso, honrar a vida dos nossos idosos, precisamos olhar para eles não como sobreviventes do tempo, mas como pessoas inteiras, ainda capazes de amar, ensinar, criar e sonhar. Envelhecer não deveria ser um castigo nem um fardo. E o suicídio, em qualquer idade, é sempre um grito que poderia ter sido ouvido antes.
Neste setembro amarelo, o desafio é claro: não podemos permitir que nossos idosos gritem sozinhos no silêncio. O risco de suicídio nessa fase da vida, muitas vezes, não se apresenta de forma explícita, mas em gestos sutis: deixar de tomar os remédios, tomá-los em excesso, recusar a alimentação, afastar-se lentamente do convívio. São sinais que pedem atenção urgente. A prevenção não está apenas nos consultórios ou nas campanhas, mas no olhar cuidadoso da família, dos vizinhos, da comunidade. Reconhecer e acolher essas manifestações é, acima de tudo, um ato de amor e de responsabilidade social.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero