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Quaresma: o que o silêncio revela? — um olhar psicanalítico sobre o tempo de recolhimento

Data da Publicação:

16/03/2026

A Quaresma, período que antecede a Páscoa, é tradicionalmente compreendida como tempo de penitência e preparação espiritual. Mas, se deslocarmos o olhar para a além da tradição cristã, o que esse convite ao recolhimento pode revelar sobre nós? O que emerge quando diminuímos o ruído externo e nos aproximamos do próprio silêncio?
Vivemos cercados por estímulos, distrações e demandas que muitas vezes funcionam como defesas psíquicas, mecanismos que nos afastam de conteúdos internos difíceis de encarar. Ao propor pausa e introspecção, a Quaresma toca, ainda que simbolicamente, naquilo que a psicanálise reconhece como fundamental: a escuta do inconsciente. O que evitamos quando mantemos a agenda cheia? De que conflitos fugimos ao nos ocuparmos incessantemente?
O jejum, prática central desse tempo, poderia ser lido para além da privação concreta. De que excessos nos alimentamos emocionalmente? De críticas severas dirigidas a nós mesmos? De repetições de padrões que nos fazem sofrer? Ao retirar algo do cotidiano, abrimos espaço para que outras faltas, mais profundas, se façam sentir. E não é justamente a experiência da falta que mobiliza o desejo?
A Quaresma também fala em arrependimento. Mas seria possível compreender o arrependimento como a capacidade de reconhecer a própria participação naquilo que se repete em nossa história? Ao invés de culpa paralisante, haveria espaço para responsabilização subjetiva? O que em nós insiste em retornar, apesar das promessas de mudança?
No silêncio do recolhimento, podem emergir angústias antes abafadas. E a angústia, para a Psicanálise, não é inimiga: é sinal de que algo precisa ser simbolizado. Quando nos permitimos escutar essa angústia, que mensagens ela carrega? Que conflitos não elaborados pedem expressão?
A caridade e a reconciliação, propostas recorrentes desse período, também nos interpelam: seria possível oferecer ao outro aquilo que ainda recusamos em nós? Até que ponto nossas dificuldades de perdoar não revelam embates internos não resolvidos?
Sob uma perspectiva psicológica, a Quaresma poderia ser vivida menos como um conjunto de regras externas e mais como uma experiência de confronto com a própria verdade subjetiva. O que acontece quando suspendemos, ainda que por um tempo, as máscaras sociais e nos aproximamos daquilo que somos, com nossas falhas, desejos e contradições?
Talvez o maior convite desse período não seja o da renúncia visível, mas o da escuta invisível. Que transformações seriam possíveis se, ao final desse caminho até a Páscoa, estivéssemos mais conscientes de nossos mecanismos de defesa, de nossas repetições e de nossos desejos mais autênticos?
E se o verdadeiro sentido do recolhimento não fosse simplesmente silenciar o mundo, mas, finalmente, ouvir o que em nós sempre tentou falar?

Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero

 

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