Hugo PONTES
Auryana ARCHANJO. DAS VÍSCERAS e outros âmagos poéticos, Edição da autora, Poços de Caldas-MG, 2025
Em DAS VÍCERAS e outros âmagos poéticos, Auryana Archanjo constrói uma poética marcada pela intensidade e pela exposição radical do eu. O livro se ancora em uma escrita visceral, que faz do corpo – físico, emocional e simbólico -o principal território de investigação. As “vísceras” do título não funcionam apenas como metáfora do íntimo, mas como matéria viva da linguagem, ou seja, aquilo que pulsa, dói, sangra e insiste em existir mesmo quando não encontra forma confortável de expressão.
Os poemas transitam por temas como dor, identidade, afeto, ruptura e reconstrução, revelando uma voz lírica que não busca suavizar a experiência humana.
Ao contrário, a autora aposta no enfrentamento direto das emoções, explorando seus íntimos núcleos sensíveis e profundos com uma linguagem por vezes crua, por vezes delicada, mas sempre sincera e verdadeira. Há um equilíbrio interessante entre o confessional e o simbólico mesmo quando o poema parece falar de uma experiência muito pessoal, ele se abre para o leitor como espelho, convite ou confronto. Do ponto de vista estético, a obra se caracteriza por versos livres e imagens fortes, que priorizam o impacto sensorial e emocional.
A economia de palavras em alguns poemas contrasta com a densidade de sentidos, reforçando a ideia de que dizer pouco pode significar dizer fundo. Das Vísceras e outros âmagos poéticos é, assim, um livro que exige entrega do leitor, pois não oferece leituras fáceis nem respostas prontas, mas propõe uma travessia pelo que há de mais humano: a vulnerabilidade. Trata-se de uma obra que afirma a poesia como espaço de resistência, catarse e autoconhecimento.
Destacamos as ilustrações de Maria Paula Magalhães e José Antônio Gomes Jr
Um poema, pág. 43
Quero desfazer
Os nós da rede.
Não abrir
Mais buraco,
para desanuviar,
quem sabe,
Libertar