A pesquisa apresentada pelo Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião, da Universidade Federal Fluminense, confirma a enorme influência da fé na sociedade brasileira. Para 81% dos entrevistados, é fundamental que os candidatos nas eleições acreditem em Deus. Entre os brasileiros que recebem até um salário mínimo, esse percentual chega a 89%, enquanto entre os mais ricos cai para 57%.
Os números não devem ser ignorados por quem procura compreender o comportamento do eleitor. Em um país marcado por desigualdades, incertezas e dificuldades cotidianas, a religião representa esperança, acolhimento e orientação moral. Para milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, acreditar em Deus não é apenas uma questão privada, mas parte essencial da maneira como enxergam o mundo, enfrentam os problemas e avaliam aqueles que pretendem governá-los.
É legítimo, portanto, que a fé seja considerada no momento do voto. O eleitor tem o direito de procurar nos candidatos valores semelhantes aos seus. O cuidado necessário está em não transformar a declaração de uma crença em certificado automático de honestidade, competência ou compromisso com o interesse público.
A história política está repleta de pessoas que invocaram o nome de Deus em discursos e campanhas, mas, quando chegaram ao poder, comportaram-se de maneira incompatível com os princípios que afirmavam defender. A fé verdadeira deve ser percebida principalmente nas atitudes: no respeito ao próximo, na defesa da justiça, na honestidade, na solidariedade e no cuidado com os mais vulneráveis.
Mais importante do que perguntar se um candidato acredita em Deus é observar se ele respeita a dignidade humana, cumpre a lei, administra corretamente os recursos públicos e apresenta propostas capazes de melhorar a vida da população.
Outro dado que merece reflexão é o de que 82% dos entrevistados defendem que as escolas ensinem crianças e adolescentes a acreditar em Deus. A família e as comunidades religiosas possuem papel fundamental na transmissão da fé. A escola, especialmente a pública, deve ensinar sobre religiões, valores, respeito e diversidade, sem impor uma crença específica. O Estado brasileiro é laico justamente para assegurar que todas as religiões sejam respeitadas — inclusive o direito daqueles que não professam nenhuma fé.
A pesquisa revela um Brasil profundamente religioso, mas também lança um alerta para as eleições. A fé não pode ser usada como instrumento de manipulação eleitoral nem como recurso de marketing para conquistar votos. Cabe ao eleitor distinguir a convicção sincera da exploração política do sentimento religioso.