O Brasil voltou a bater recorde de inadimplência em setembro. Segundo a Serasa, 84,2 milhões de brasileiros estavam com contas em atraso, somando R$ 597,4 bilhões em dívidas. São números que deveriam ocupar o centro do debate econômico. Por trás deles estão famílias que perderam a capacidade de cumprir seus compromissos e precisam escolher quais despesas poderão pagar.
É fácil atribuir tudo à falta de planejamento. A responsabilidade individual existe, mas não explica, sozinha, um problema dessa dimensão. Quando o dinheiro acaba antes do mês, o crédito pode deixar de ser uma opção para se tornar uma tentativa de manter a casa funcionando. O alívio imediato, porém, pode virar uma obrigação que compromete os meses seguintes.
Forma-se um círculo difícil de romper. A família toma dinheiro para cobrir uma despesa, assume parcelas e passa a ter menos renda disponível. Diante de outro imprevisto, recorre novamente ao crédito. Quando percebe, já não consegue pagar nem o que devia antes nem as contas que continuam chegando.
As consequências ultrapassam a porta de casa. O consumidor endividado reduz compras, adia serviços e limita seus gastos ao indispensável. O comércio sente, os pequenos negócios perdem movimento e a economia local fica mais pressionada. A inadimplência é, portanto, uma preocupação de toda a sociedade.
Renegociar é necessário, mas o acordo precisa caber no bolso. De pouco adianta substituir uma dívida impossível por uma prestação que voltará a atrasar. Bancos e empresas devem oferecer condições claras e avaliar a capacidade de pagamento de quem procura uma saída.
Também é preciso tratar a educação financeira com seriedade, sem transformá-la em resposta para tudo. Saber organizar as contas ajuda, mas não faz o salário aumentar. A recuperação exige renda, oportunidades de trabalho e condições de crédito que permitam ao consumidor honrar seus compromissos.
Um país não pode se acostumar a anunciar recordes de inadimplência como se fossem apenas mais um indicador. O desafio é devolver às famílias condições de pagar suas contas sem sacrificar o básico. A economia precisa funcionar também dentro de casa.