A recente aprovação do uso da tirzepatida (nome comercial Mounjaro) para o tratamento da obesidade pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) representa um marco importante no enfrentamento de uma das maiores epidemias do século: o excesso de peso e suas consequências metabólicas. Antes restrita ao tratamento do diabetes tipo 2, a tirzepatida agora tem indicação ampliada para pacientes com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30, ou com IMC a partir de 27, desde que apresentem ao menos uma comorbidade associada, como hipertensão, dislipidemia, apneia do sono, pré-diabetes ou colesterol elevado.
Essa mudança vem ao encontro da prática clínica, já que muitos pacientes vinham utilizando a medicação de forma off-label, ou seja, fora da bula, mas com resultados animadores no controle do peso. Agora, com o respaldo regulatório oficial, espera-se uma ampliação do acesso, inclusive por meio de planos de saúde e a consolidação do Mounjaro como parte do arsenal terapêutico contra a obesidade, uma doença crônica de múltiplos impactos sobre a saúde.
Mecanismo de ação inovador
A tirzepatida atua de maneira única ao combinar dois hormônios intestinais: o GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) e o GIP (peptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Essa dupla ação promove não apenas maior saciedade e controle do apetite, mas também melhora significativa no metabolismo da glicose, com potencial aumento do gasto calórico e eliminação de gordura corporal.
Estudos demonstram que a ativação simultânea desses dois receptores tem um efeito sinérgico: há maior controle glicêmico, redução da fome e perda de peso significativa.]
Evidência clínica robusta
A eficácia da tirzepatida é respaldada por dados sólidos. O programa SURMOUNT, composto por seis estudos clínicos de fase 3 com aproximadamente 20 mil participantes, demonstrou perdas de peso de até 22,5% em 72 semanas com doses entre 10 mg e 15 mg semanais. Em comparação direta com a semaglutida (princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy), a tirzepatida apresentou resultados superiores: enquanto a semaglutida proporcionou redução média de peso de 13%, a tirzepatida chegou a quase 20%.
Esquema de administração
O Mounjaro é administrado uma vez por semana, por via subcutânea, em canetas pré-cheias com doses iniciais de 2,5 mg ou 5 mg, com possibilidade de escalonamento conforme resposta clínica e tolerância do paciente. Nos demais países onde o medicamento já está aprovado, doses mais altas, como 10 mg ou 15 mg, são utilizadas sob monitoramento.
Possíveis efeitos adversos
Como todo tratamento medicamentoso, a tirzepatida pode provocar efeitos colaterais, sendo os mais comuns de origem gastrointestinal, náuseas, vômitos e diarreia, principalmente nas primeiras semanas de uso. Reações no local da injeção também são possíveis.
Além disso, há risco aumentado de hipoglicemia quando associada a outros antidiabéticos, e as doses mais altas exigem atenção redobrada quanto à tolerabilidade e adesão ao tratamento.
Considerações finais
Apesar de sua eficácia promissora, é essencial ressaltar que nenhum medicamento, por si só, resolve a obesidade. A tirzepatida deve ser parte de uma estratégia terapêutica mais ampla, que envolva mudanças sustentáveis no estilo de vida, como alimentação equilibrada, prática regular de atividades físicas e acompanhamento por uma equipe multidisciplinar.
O reconhecimento da obesidade como doença crônica, aliado ao desenvolvimento de terapias mais eficazes, como a tirzepatida, representa um avanço significativo na medicina moderna, com impacto direto na qualidade de vida dos pacientes e na redução de riscos cardiovasculares e metabólicos.
Por Dra. Silvana Guedes
(@drasilvanaguedes)