O aumento da expectativa de vida costuma ser tratado como uma conquista da modernidade. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o número de pessoas com 60 anos ou mais chegou a 32,1 milhões no Brasil — 15,9% da população. A projeção é que, até 2030, tenhamos mais idosos do que crianças entre 0 e 14 anos. O dado impressiona, mas esconde uma pergunta incômoda: estamos preparados para envelhecer com dignidade?
Quando se olha para a velhice com atenção, o que emerge é menos uma história de conquistas e mais um retrato de esquecimento social. A pessoa idosa, em muitos contextos, é empurrada para a invisibilidade — e não apenas nos espaços físicos, mas, também nos afetivos, nos institucionais e nos simbólicos. A lógica da produtividade, do desempenho e da juventude eterna deixa pouco espaço para corpos e subjetividades que já não “rendem” da mesma forma.
Esse processo tem consequências profundas. Estudo da Fiocruz (2020) mostra que 26% das idosas brasileiras apresentam sintomas de depressão. A OMS alerta que 15% da população com mais de 60 anos sofre de algum transtorno mental. E o mais grave: mais da metade não recebe tratamento adequado. Quando se somam essas estatísticas ao relato frequente de solidão — presente em cerca de 25% das pessoas idosas, segundo o Vigitel 2023 — percebe-se que o sofrimento emocional na velhice não é exceção, mas um fenômeno silencioso e coletivo.
A Psicologia pode oferecer uma escuta qualificada para esse sofrimento, mas está longe de ser suficiente se continuar sendo tratada como um recurso individual e não como parte de um projeto de cuidado coletivo. Hoje, menos de 5% dos profissionais da Psicologia no SUS têm formação voltada ao envelhecimento. Faltam serviços, políticas públicas e principalmente reconhecimento de que saúde mental na velhice é um tema urgente.
É preciso também criticar a narrativa otimista que exige da pessoa idosa uma reinvenção constante, como se bastasse “pensar positivo” para viver bem. Envelhecer traz perdas: de vínculos, de função social, de autonomia. Mas essas perdas não precisam significar sofrimento psíquico inevitável. O impacto emocional do envelhecimento depende, em grande parte, das condições em que ele ocorre — e essas condições são políticas.
Não se trata de romantizar a velhice, mas de reconhecer que ela pode ser uma etapa de reconexão com a própria história, de reparação de vínculos, de partilha de sabedoria. Desde que haja espaço para isso. Desde que a sociedade aceite escutar, com interesse e respeito, quem já viveu muito e ainda tem muito a dizer.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero