A Inteligência Artificial (IA) já está presente em praticamente todos os aspectos da vida moderna — dos algoritmos que escolhem o que vemos nas redes sociais aos assistentes virtuais que respondem nossas dúvidas em segundos. Para a geração mais jovem, que já nasceu imersa nesse mundo digital, os avanços da IA representam praticidade, velocidade e uma fonte aparentemente infinita de informações. No entanto, do ponto de vista psicológico, essa mesma facilidade pode estar enfraquecendo uma habilidade fundamental: o senso crítico.
O senso crítico se desenvolve por meio da reflexão, da dúvida, do questionamento e da exposição a diferentes perspectivas. Mas quando uma tecnologia entrega respostas prontas, personalizadas e quase instantâneas, o jovem pode ser levado a confiar cegamente nessas informações, sem exercitar o pensamento autônomo. Esse fenômeno preocupa profissionais da Psicologia, da Educação e da Neurociência. Ao não questionar o que consome, o jovem corre o risco de se tornar passivo diante do conhecimento. Em vez de construir saberes por meio da experiência e do confronto com ideias diferentes, acaba absorvendo conteúdos moldados por algoritmos, muitas vezes reforçando crenças já existentes e limitando o contato com a diversidade de opiniões.
Outro ponto crítico é o papel dos algoritmos das redes sociais e plataformas de busca, que utilizam IA para filtrar e priorizar conteúdos com base no histórico de navegação de cada usuário. Esse mecanismo, embora eficiente, cria as chamadas “bolhas cognitivas” — ambientes virtuais onde o jovem é exposto apenas a opiniões similares às suas, o que dificulta o desenvolvimento da empatia, da tolerância ao contraditório e da capacidade de argumentação. Sob a ótica da Psicologia do Desenvolvimento, esse é um momento especialmente delicado. A adolescência e o início da vida adulta são fases cruciais na formação da identidade e da visão de mundo. Se o jovem cresce em um ambiente digital onde tudo é filtrado, personalizado e imediato, ele pode não desenvolver plenamente competências como análise crítica, tomada de decisão consciente e pensamento ético.
Diante desse cenário, é urgente que pais, educadores e profissionais da saúde mental atuem juntos na promoção de uma educação emocional e digital. Ensinar os jovens a questionar fontes, refletir sobre os conteúdos que consomem, lidar com opiniões divergentes e reconhecer seus próprios vieses é tão importante quanto ensinar matemática ou gramática. A Psicologia pode e deve atuar nesse processo, ajudando os jovens a desenvolver autonomia cognitiva — a capacidade de pensar por si mesmos, mesmo em um mundo onde máquinas oferecem respostas rápidas e sedutoras.
A Inteligência Artificial tem um papel importante e positivo a desempenhar na sociedade, inclusive na educação e na saúde mental. Mas ela precisa ser usada com consciência. O jovem precisa entender que a IA não substitui o pensamento crítico, nem a experiência humana. Por isso, mais do que ensinar a usar a tecnologia, precisamos ensinar a refletir sobre ela. Para que, em vez de formar consumidores passivos de conteúdo, possamos formar cidadãos críticos, conscientes e preparados para os desafios do futuro.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero