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Dalmoni Lydijusse transforma identidade, cor e memória em arte no IFSULDEMINAS

Data da Publicação:

09/10/2025

Poços de Caldas, MG — A Galeria Expoarte do IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas inaugura, no dia 10 de outubro, às 19h, apresenta a próxima edição de exposições artísticas: “Pintores do IF” e “Para encontrar minha pele”, da artista plástica Dalmoni Lydijusse, responsável pelo Arte Ziriguidum. A abertura contará com coquetel e o show “Prepare seu coração”, com Wolf Borges (voz) e Albano Sales (piano), proporcionando uma experiência cultural completa aos visitantes.
A artista plástica Dalmoni Lydijusse, poços-caldense de sensibilidade ímpar, inaugura nesta sexta-feira, 10, sua mais recente exposição no Instituto Federal do Sul de Minas (IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas). A mostra, em cartaz na biblioteca da instituição até 17 de dezembro, é um mergulho profundo nas tonalidades da pele humana, nas complexidades do colorismo e nas sutilezas da própria identidade.
Mais do que uma série de pinturas, o trabalho é uma travessia existencial — uma narrativa biográfica que nasce do espanto diante de uma fotografia e desabrocha em reflexão estética, social e política.

Um instante revelador: quando a cor se tornou consciência
O ponto de partida de toda essa jornada foi um álbum de formatura. Ao folhear as páginas em preto e branco, Dalmone se deteve em uma imagem aparentemente banal: ela e o filho, Paulo, de mãos dadas, caminhando por um salão. “Eu olhei para aquela foto e percebi que eu era o cinza mais escuro da imagem”, relembra.
Esse detalhe, quase imperceptível, acendeu uma centelha de descoberta. “Foi ali que me dei conta de que eu nunca tinha realmente me visto. Eu sabia que tinha uma cor, mas não sabia qual. Quando percebi que minha pele era mais escura do que eu imaginava, entendi que havia algo maior — uma educação marcada por traços de embranquecimento, algo comum em uma sociedade ainda moldada pelo racismo estrutural.”
A partir desse momento, a artista passou a revisitar lembranças, gestos e situações do cotidiano sob uma nova luz. “Foi como um efeito dominó. Comecei a me lembrar de episódios que vivi, que me causaram incômodo, mas que eu não reconhecia como racismo. A foto me abriu um portal para dentro de mim mesma.”

Do biográfico ao coletivo: a arte como espelho da sociedade
O que começou como uma descoberta pessoal transformou-se em um processo artístico e de pesquisa. Dalmone aprofundou-se nos estudos sobre o colorismo — conceito que descreve como diferentes tons de pele geram experiências distintas dentro das mesmas estruturas raciais.
Ela encontrou eco em autoras como Alessandra De Vosk, brasileira que vive no Canadá e que escreveu Colorismo, obra integrante da coleção organizada por Djamila Ribeiro, dedicada à educação antirracista. “Foi um divisor de águas”, diz Dalmoni. “Percebi que, para pensar uma educação antirracista, é preciso reconhecer o quanto somos, estruturalmente, racistas. E a arte se tornou o espaço onde posso pensar isso com as mãos, com as tintas, com as formas.”
Da inquietação nasceu o projeto que hoje ocupa as paredes do IFSULDEMINAS: uma série de pinturas que abordam a pluralidade das cores de pele humana, materializadas em composições que evocam pétalas, peles e existências. “Eu quis pintar as cores de pele. Marrons feitos com verde, com rosa, com azul, com violeta. São incontáveis matizes, como se cada tom contasse uma história. Quis saber: será que conseguimos olhar para a cor da pele sem o peso histórico, apenas como cor? Talvez ainda não. Mas precisamos começar esse exercício.”

A arte como ato de decolonização
O trabalho de Dalmoni é também um gesto de decolonialidade. A artista questiona os referenciais artísticos que a formaram — majoritariamente europeus — e busca redescobrir o Brasil através de uma lente que valoriza a multiplicidade dos saberes e das estéticas afro-brasileiras e indígenas. “Durante muito tempo, quando se falava em arte, as referências vinham sempre de fora. Hoje, quero olhar para os nossos artistas, para as nossas histórias, para o nosso país. Quero me despir de um olhar eurocentrado e construir algo que dialogue com as nossas raízes, com o nosso território e com o nosso corpo.”
Ao lado das telas, a exposição também inclui textos autorais e um vídeo, produzido em parceria com um amigo, no qual Dalmoni compartilha suas reflexões sobre identidade, ancestralidade e pertencimento. “São camadas de expressão. A pintura é o gesto, o texto é o pensamento, e o vídeo é o sopro que dá voz a tudo isso.”

A cor, o corpo e o olhar do outro
Em seu percurso, Dalmoni também revisita episódios marcantes de vida — experiências que hoje, à luz do autoconhecimento racial, ganham novos significados.
Ela recorda, por exemplo, uma cena adolescente, quando foi impedida de experimentar um casaco em uma loja na Argentina. “Na época, achei que era um mal-entendido de idioma. Hoje entendo que era racismo.
E ele me marcou tanto que lembro até hoje. É algo que fica, mesmo que o corpo não entenda de imediato.”
Essas lembranças, transpostas para a tela, formam uma poética que toca tanto o pessoal quanto o coletivo. “Quero que o público olhe para as minhas pinturas e pense sobre como os olhares nos atravessam. Quantas vezes um olhar de repulsa, de inferiorização, de distanciamento, nos atinge e a gente nem percebe? A arte me ajudou a entender isso — e, talvez, possa ajudar outras pessoas também.”

Reconhecimento e diálogo no IFSULDEMINAS
O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) do IFSULDEMINAS identificou na obra de Dalmoni uma produção artística de caráter antirracista e contemporâneo, que propõe reflexões urgentes sobre identidade e estrutura social. “Fiquei muito emocionada com o convite. É um reconhecimento, mas, mais do que isso, é um espaço de diálogo. A arte tem essa força de aproximar, de provocar e de curar. Espero que quem visitar a exposição sinta vontade de conversar sobre isso, de se reconhecer e de se ver.”
A artista, que atualmente cursa uma pós-graduação voltada às relações étnico-raciais, vê a mostra como parte de um processo contínuo. “Estou na pintura número dez e sigo criando. Cada tela é uma conversa com o passado, com o presente e com o que ainda preciso compreender.”
O evento é uma iniciativa em parceria do Laboratório Voa e o Neabi ( Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas) por trazer reflexões sobre diferentes temáticas sociais como questões raciais, interseccionando arte, cultura e música.
As exposições estarão abertas à visitação, de segunda a sexta, das 8h às 20h, na Galeria Expoarte – IFSULDEMINAS/Campus Poços de Caldas (Av. Dirce Pereira Rosa, 300, Bairro Jardim Esperança). Até 17 de dezembro de 2025.
Expoarte Galeria, VOA Laboratório de Criatividade e IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas.
Uma oportunidade de se conectar com a criatividade e a expressão artística da nossa comunidade!

 

PAULO VITOR DE CAMPOS
pvcampos@gmail.com
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@mantipocos
@pvcampos.pvc

 

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