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LEITOR, EM QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO?

Data da Publicação:

28/03/2026

Hugo PONTES*

Em meio ao ruído constante das notificações, manchetes apressadas, análises instantâneas e opiniões prontas, pensar tornou-se um ato quase subversivo. O jornal chega às mãos – seja em papel, seja em uma tela iluminada – e, muitas vezes, é consumido com a mesma velocidade com que se passa o dedo para a próxima notícia. E havemos de perguntar: leitor, em que você está pensando?
Pensar exige tempo, e tempo é o bem mais disputado em nosso século. Vivemos sob a lógica da urgência permanente. Tudo acontece agora, tudo exige resposta imediata. Somos convidados, a todo instante, a reagir para curtir, comentar, compartilhar, concordar ou discordar. Raramente somos convidados a refletir. No entanto, é justamente a reflexão que separa a informação do conhecimento, e o conhecimento da sabedoria.
O jornalismo nasce com a missão de informar, mas cumpre um papel ainda maior quando provoca perguntas. Uma boa reportagem não se encerra no ponto final. Ela continua na mente do leitor, confrontando certezas, ampliando horizontes, incomodando zonas de conforto. Quando isso acontece, o jornal deixa de ser apenas um veículo de notícias e se transforma em espaço de diálogo – silencioso, mas profundo – entre quem escreve e quem lê.
Há uma diferença essencial entre estar informado e estar consciente. Estar informado é acumular dados; estar consciente é compreender contextos, perceber interesses, reconhecer contradições. Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, o pensamento crítico torna-se uma forma de resistência. Resistir à superficialidade, ao simplismo, à tentação de aceitar respostas fáceis para problemas complexos.
Pensar também implica dúvida. E a dúvida, muitas vezes, é vista como fraqueza. No entanto, é ela que move o conhecimento, a ciência, a democracia. Uma sociedade que não questiona é uma sociedade vulnerável. Questionar não significa negar tudo, mas examinar, ponderar, comparar e, sobretudo, não abdicar do próprio juízo.
Por isso, caro leitor, a pergunta permanece e se aprofunda. Ao virar a página, ao fechar esta edição, ao seguir com o dia: em que você está pensando? Pensou sobre o que leu? Discordou? Concordou sem perceber? Mudou de ideia? Se este texto tiver provocado uma pausa – ainda que breve – no fluxo acelerado da rotina, então já terá cumprido seu papel.
Por certo, um jornal não é apenas o que se lê. É também, e principalmente, aquilo que permanece depois da leitura: a inquietação, a reflexão, a pergunta que não se cala. Em tempos tão ruidosos, pensar pode ser o gesto mais necessário e mais revolucionário.

*Professor, poeta
e jornalista

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