Os números divulgados pelo Ministério das Mulheres acendem um alerta que não pode ser ignorado. Em apenas um ano, as denúncias de violência contra mulheres no ambiente digital cresceram impressionantes 188,6%. Entre janeiro e maio deste ano, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências, contra 5.795 no mesmo período do ano passado.
Mais do que um aumento estatístico, os dados revelam uma realidade preocupante: a violência de gênero está migrando e se adaptando aos novos espaços de convivência da sociedade. Se antes a agressão era associada principalmente ao ambiente físico, hoje ela encontra terreno fértil nas redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online e diversas plataformas digitais.
A falsa sensação de anonimato e impunidade oferecida pela internet tem estimulado comportamentos abusivos. Ameaças, perseguições, exposição indevida de imagens, chantagens, humilhações públicas e controle da vida pessoal tornaram-se instrumentos de violência que causam danos psicológicos profundos e, muitas vezes, consequências irreparáveis para as vítimas. Outro aspecto que merece atenção é o perfil das mulheres mais atingidas. Quase metade das vítimas registradas no Ligue 180 é composta por mulheres negras, evidenciando que desigualdades históricas continuam se refletindo também no ambiente digital. Os dados mostram ainda que a maior concentração de denúncias está entre mulheres de 35 a 44 anos, contrariando a ideia de que esse problema afeta apenas adolescentes e jovens.
A questão econômica também aparece como fator agravante. Quase metade das vítimas não possui renda ou recebe até um salário mínimo. Essa condição muitas vezes dificulta o acesso à informação, ao suporte jurídico e aos mecanismos de proteção disponíveis, aumentando a vulnerabilidade diante dos agressores.
A internet trouxe avanços extraordinários para a comunicação e para o acesso à informação. No entanto, não pode se transformar em território sem lei. O respeito, a dignidade e a segurança das mulheres devem ser garantidos tanto nas ruas quanto nas telas. Afinal, por trás de cada denúncia existe uma pessoa real sofrendo consequências reais.