Hugo PONTES*
A relação entre educação e mercado de trabalho no Brasil sempre foi marcada por contrastes. Embora o país tenha avançado significativamente no acesso à educação nas últimas décadas, esse progresso não tem se convertido, na mesma proporção, em melhores oportunidades de emprego e renda para a população. O resultado é um persistente desencontro entre formação educacional, demandas do mercado e desenvolvimento social.
Nas últimas décadas, o Brasil praticamente universalizou o acesso ao ensino fundamental e ampliou o número de matrículas no ensino médio e superior. No entanto, a qualidade da educação permanece como um dos principais desafios. Avaliações nacionais e internacionais indicam defasagens significativas em leitura, matemática e ciências, competências básicas para a maioria das ocupações. Essa fragilidade impacta diretamente a produtividade do trabalhador brasileiro e limita sua competitividade no mercado global.
Outro ponto crítico é o desalinhamento entre a formação oferecida e as necessidades do mercado de trabalho. Enquanto setores como tecnologia, saúde, logística e indústria enfrentam escassez de mão de obra qualificada, milhões de jovens concluem o ensino médio sem habilidades técnicas ou profissionais claras. O ensino técnico e profissionalizante, embora tenha avançado com institutos federais e o Sistema S, ainda atende uma parcela reduzida da população quando comparado a países desenvolvidos.
A desigualdade social agrava esse cenário. Jovens de famílias de baixa renda, em geral, frequentam escolas públicas com menos recursos, têm maior evasão escolar e ingressam precocemente em trabalhos informais. Já os estudantes de classes mais altas conseguem prolongar a escolarização, acessar universidades de prestígio e ocupar os melhores postos de trabalho. Assim, o mercado de trabalho acaba reproduzindo desigualdades educacionais, perpetuando o ciclo de exclusão social.
As transformações tecnológicas recentes intensificam esses desafios. A automação e a digitalização eliminam empregos de baixa qualificação e criam funções que exigem competências digitais, capacidade de adaptação e aprendizado contínuo. No Brasil, grande parte da força de trabalho ainda atua em ocupações vulneráveis à automação, o que torna urgente investir em requalificação profissional e educação ao longo da vida.
Apesar das dificuldades, há caminhos possíveis. Políticas públicas que integrem educação básica de qualidade, expansão do ensino técnico, aproximação entre escolas e empresas e incentivo à inovação podem reduzir o abismo entre educação e trabalho. Além disso, valorizar professores, atualizar currículos e investir em infraestrutura educacional são medidas essenciais para preparar o país para os desafios do século XXI. Sem isso, o crescimento econômico continuará limitado e as desigualdades sociais, aprofundadas.
*Professor, poeta e jornalista