Os números divulgados pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) acendem um sinal de alerta para a economia brasileira. Em maio, o percentual de famílias endividadas atingiu 81,6%, o maior índice desde o início da série histórica, em 2015. O dado revela uma realidade preocupante: cada vez mais brasileiros dependem do crédito para manter o consumo e equilibrar o orçamento doméstico.
O cenário se torna ainda mais delicado quando se observa que o cartão de crédito continua sendo o principal instrumento de endividamento, presente em 84,6% das famílias que possuem dívidas. Embora seja uma ferramenta importante para facilitar pagamentos e organizar despesas, o cartão também pode se transformar em uma armadilha quando utilizado sem planejamento. O problema se agrava diante das taxas de juros extremamente elevadas praticadas no crédito rotativo, que ultrapassam 428% ao ano, tornando quase impossível a recuperação financeira para quem não consegue quitar a fatura integral.
É preciso reconhecer que o aumento do endividamento não decorre apenas de falta de controle financeiro. O custo de vida elevado, a inflação acumulada em diversos setores, as despesas com saúde, educação e moradia, além da instabilidade da renda de muitas famílias, contribuem para o crescimento das dívidas. Em muitos casos, o crédito deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade para cobrir gastos básicos.
No entanto, o recorde de endividamento também revela uma fragilidade estrutural da educação financeira no país. Ainda são poucos os brasileiros que recebem orientação adequada sobre planejamento de gastos, formação de reservas de emergência e uso consciente do crédito. Sem esse conhecimento, milhões de consumidores acabam recorrendo a empréstimos ou parcelamentos sem avaliar os impactos futuros no orçamento.
A situação exige ações conjuntas. O setor financeiro precisa ampliar a oferta de linhas de crédito mais acessíveis e transparentes. O poder público pode fortalecer programas de educação financeira e incentivar iniciativas de renegociação de dívidas.
O endividamento, por si só, não é necessariamente um problema. Muitas vezes ele está ligado à aquisição de bens, investimentos ou melhoria da qualidade de vida. O risco surge quando a dívida deixa de ser administrável e passa a comprometer o sustento familiar. O recorde registrado pela CNC deve servir como um alerta para toda a sociedade.