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Diálogo sim

Data da Publicação:

15/07/2026

Os números revelados pela pesquisa Quaest, encomendada pelo Instituto Infinis, expõem uma contradição que atravessa a sociedade brasileira. Embora a imensa maioria da população reconheça o diálogo como a melhor ferramenta para educar crianças e adolescentes, práticas de violência física e verbal continuam presentes no cotidiano de muitas famílias. O contraste entre discurso e realidade evidencia um desafio que vai muito além da esfera doméstica e exige reflexão coletiva.
Os dados são preocupantes. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, mais de 115 mil denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes foram registradas pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Em um país que abriga cerca de 55 milhões de pessoas com menos de 18 anos, o volume de ocorrências acende um alerta sobre a urgência de fortalecer mecanismos de proteção e conscientização.
A pesquisa mostra que nove em cada dez brasileiros acreditam no diálogo como principal instrumento de orientação. No entanto, 62% admitem já ter gritado com uma criança, enquanto quase metade dos entrevistados reconhece ter recorrido a tapas, e mais de um quarto afirma ter utilizado objetos para punição. Trata-se de uma distância significativa entre aquilo que a sociedade considera ideal e as atitudes efetivamente adotadas no dia a dia.
É preciso compreender que a educação baseada no respeito e na escuta não significa ausência de limites. Ao contrário, estabelecer regras, orientar comportamentos e corrigir erros faz parte da responsabilidade dos pais e responsáveis. A diferença está na forma como isso é realizado. A violência, em qualquer de suas manifestações, deixa marcas profundas e compromete o desenvolvimento emocional, social e psicológico das crianças.
Embora o estudo não tenha investigado as razões dessa discrepância, é impossível ignorar fatores presentes na rotina contemporânea, como a pressão econômica, o estresse, a sobrecarga emocional e a falta de apoio às famílias. Esses elementos, entretanto, não podem servir como justificativa para atitudes que perpetuam ciclos de agressão e intolerância.
Promover uma cultura de paz dentro de casa é uma tarefa que envolve famílias, escolas, poder público e toda a sociedade. Investir em informação, acolhimento e políticas de proteção à infância é fundamental para transformar a consciência já existente em práticas concretas. Afinal, se o diálogo é reconhecido como o melhor caminho, é preciso que ele deixe de ser apenas uma convicção e se torne uma realidade cotidiana.

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