Acordar. Olhar o celular. Responder mensagens. Trabalhar. Resolver problemas. Fazer compras. Cuidar da casa. Atender às necessidades dos filhos, dos pais, do companheiro. Cumprir compromissos. Lembrar do que todo mundo esqueceu. Chegar ao fim do dia cansado e, mesmo assim, pensar no que ainda precisa ser feito amanhã.
A rotina de muitas pessoas é exatamente assim. E, quando alguém pergunta como estamos, a resposta costuma vir quase automaticamente: “Estou bem. Só estou cansado”. Mas será que é apenas cansaço?
Existe uma diferença importante entre estar cansado porque tivemos um dia cheio e viver durante meses ou anos como se estivéssemos permanentemente tentando dar conta de tudo. No primeiro caso, o descanso costuma ajudar. No segundo, mesmo quando finalmente paramos, a cabeça continua funcionando. A lista de tarefas permanece, as preocupações continuam circulando e a sensação de que nunca é suficiente não desaparece.
Talvez essa seja uma das contradições do nosso tempo. Temos cada vez mais recursos para facilitar a rotina, mas também acumulamos cada vez mais tarefas, expectativas e cobranças. Precisamos produzir, responder rapidamente, cuidar da aparência, manter relacionamentos, acompanhar notícias, estar disponíveis e, de preferência, demonstrar que estamos conseguindo fazer tudo isso muito bem.
Só que ninguém consegue sustentar indefinidamente a imagem de quem dá conta de tudo. Em algum momento, o corpo pode começar a reclamar. O sono muda, a irritação aumenta, a paciência diminui, pequenas coisas passam a incomodar demais. O prazer vai ficando para depois. O encontro com os amigos é adiado. Aquele livro fica na cabeceira. O passeio que gostaríamos de fazer nunca acontece. E a vida vai sendo organizada em torno do que precisa ser resolvido, não necessariamente em torno daquilo que também nos faz bem.
Dar conta é importante. Afinal, temos responsabilidades e elas fazem parte da vida adulta. O problema começa quando “dar conta” se transforma na única maneira que encontramos de existir.
Talvez seja necessário, de vez em quando, fazer uma pergunta incômoda: quando foi a última vez que fiz alguma coisa simplesmente porque queria, e não porque precisava? Não é uma defesa da irresponsabilidade, tampouco uma proposta para abandonar compromissos. É um convite para perceber que a vida não pode ser formada apenas por tarefas concluídas, porque viver uma rotina cheia, pode significar viver no piloto automático.
Às vezes, o que precisamos não é de uma grande mudança. Pode ser recuperar uma conversa que deixamos de ter, voltar a fazer algo de que gostávamos, descansar sem culpa, pedir ajuda, estabelecer um limite ou reconhecer que estamos cansados antes que o corpo precise gritar. Porque viver não deveria ser esperar que tudo esteja resolvido para, só então, permitir-se estar presente na própria vida. A vida acontece também no meio do que ainda precisa ser compreendido, reorganizado e, algumas vezes, simplesmente vivido.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero