Quando um candidato defende que a corrupção seja tratada com o rigor reservado aos crimes hediondos, seu argumento merece atenção. O desvio de recursos públicos não representa apenas prejuízo financeiro aos cofres do Estado. Por trás de cada verba roubada, há serviços que deixam de ser prestados e necessidades essenciais que permanecem sem resposta.
O dinheiro desviado da saúde pode significar a falta de medicamentos, exames, ambulâncias, leitos e profissionais. Na assistência social, pode representar o prato de comida que não chega à mesa de uma família. Em situações extremas, a corrupção contribui para a perda de vidas que poderiam ter sido protegidas por políticas públicas eficientes.
O escândalo envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social é um dos exemplos mais revoltantes dessa realidade. Atingir aposentados e pensionistas — muitos deles idosos, doentes e dependentes de uma renda limitada — é uma violência covarde e vergonhosa. Não se trata apenas de retirar alguns reais de um benefício. Trata-se de atacar pessoas vulneráveis, que trabalharam durante toda a vida e deveriam encontrar no Estado proteção, e não abandono.
A indignação aumenta diante da constatação de que esquemas dessa natureza podem permanecer ativos por anos, aproveitando-se da burocracia, da fragilidade dos mecanismos de fiscalização e da dificuldade que muitos idosos enfrentam para identificar e contestar cobranças.
Classificar juridicamente a corrupção como crime hediondo exige debate técnico e alterações na legislação. Mas, do ponto de vista moral e social, é difícil negar a gravidade de suas consequências. Quem desvia dinheiro destinado à saúde, à alimentação, à previdência ou à assistência pública conhece os riscos impostos à população.
O Brasil precisa superar a ideia de que a corrupção é um delito sem vítimas visíveis. As vítimas existem: estão nas filas dos hospitais, nas casas onde falta comida e entre os aposentados que descobrem descontos que nunca autorizaram.
Combater a corrupção não pode continuar apenas uma promessa repetida durante as eleições.