Nem todo silêncio é escolha. Às vezes, ele é aprendizado.
Há pessoas que cresceram em ambientes onde falar não era permitido, onde questionar era entendido como desobediência, chorar era motivo de vergonha ou expressar sentimentos simplesmente não era levado a sério. Crianças que tentaram contar o que sentiam e ouviram que era bobagem, exagero ou falta do que fazer. Crianças que aprenderam, pouco a pouco, que era melhor não falar.
E quando o silêncio se transforma em uma forma de proteção, ele pode acompanhar uma pessoa por muitos anos.
Na vida adulta, isso pode aparecer de maneiras que nem sempre são percebidas. Há quem tenha dificuldade para dizer que está triste, que ficou magoado, que precisa de ajuda ou que alguma coisa não está bem. Há quem concorde para evitar conflitos, peça desculpas mesmo quando não fez nada de errado ou prefira guardar uma opinião para não desagradar alguém.
Nem sempre o silêncio significa falta de assunto. Ele pode carregar medo, insegurança, vergonha, raiva, tristeza, saudade e até mesmo o desejo de ser compreendido sem precisar explicar tudo. Pode ser a maneira encontrada para se proteger de uma nova rejeição, de uma crítica ou da sensação de não ser levado a sério outra vez.
Esse silencio aprendido em uma história inteira de coisas que nunca encontraram espaço para serem ditas também aparecem nas relações. Aquilo que incomodou, mas não foi dito. O pedido que não foi feito. A mágoa que foi engolida. A conversa adiada tantas vezes que, quando finalmente poderia acontecer, já existe uma distância difícil de atravessar.
Por isso, talvez seja importante olhar para o silêncio com um pouco mais de cuidado. Nem sempre quem não fala não tem nada a dizer. Algumas pessoas passaram tanto tempo sem serem verdadeiramente escutadas que já não sabem por onde começar.
Por certo que o silêncio pode ser necessário, pode ser descanso, reflexão, intimidade. Há momentos em que ficar em silêncio é uma escolha saudável. A questão é quando ele deixa de ser escolha e passa a ser a única forma possível de estar no mundo.
Talvez, antes de falar, seja preciso aprender que aquilo que se sente tem importância. Que é permitido discordar, dizer “não”, admitir quando não se está bem. Que não há a necessidade de se encontrar as palavras perfeitas para que a própria dor seja considerada.
Escutar, sem o anseio de aconselhar ou solucionar é um gesto importante, à medida que permite que o outro exista também através de suas próprias palavras, muito embora cada um tenha o seu tempo de ouvir, compreender e elaborar o que diz, a boa escuta antecede todo esse processo.
Porque há coisas que o silêncio diz. E talvez algumas delas só possam ser ouvidas quando somos capazes de permanecer em silêncio com o outro, sem pressa, sem julgamentos, atentos àquilo que existe para além das palavras.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero