02:39 - Quarta-Feira, 04 de Novembro de 2026

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A NATUREZA E O TEMPO

Data da Publicação:

18/09/2026

Hugo PONTES*

É sempre interessante quando falamos que “não temos tempo”, enquanto a natureza nunca parece ter pressa. Árvores crescem sem ansiedade, rios seguem seu curso sem atalhos e as estações chegam quando precisam chegar e não quando exigimos. Talvez o conflito ambiental que vivemos hoje comece exatamente aí: na nossa incapacidade de aceitar um tempo que não pode ser acelerado.
A sociedade moderna transformou o tempo em mercadoria. Tudo precisa ser rápido, produtivo e imediato. Essa lógica, quando aplicada à natureza, torna-se perigosa. Queremos colher mais rápido, extrair mais fundo e consumir sem esperar que os ciclos se completem. O resultado está à nossa volta: solos sobrecarregados, climas extremos e paisagens que não se recuperam como antes.
Na natureza, o tempo não é desperdício é condição de existência. Nada floresce antes da hora sem consequências. Quando interferimos nesse ritmo, rompemos equilíbrios que levaram séculos para se formar. Ainda assim, insistimos em agir como se houvesse sempre um “depois” para consertar os danos.
O mais irônico é que buscamos soluções tecnológicas para problemas que, em grande parte, surgiram por desrespeitarmos algo simples: o tempo natural das coisas. Não se trata de rejeitar o progresso, mas de reconhecer limites. Crescer indefinidamente em um planeta finito é uma ideia que desafia não só a ciência, mas o bom senso.
Talvez a maior lição que a natureza tenta nos ensinar seja também a mais difícil de aceitar: desacelerar não é perder tempo, é garantir o futuro. Enquanto insistirmos em impor nosso relógio ao mundo natural, continuaremos pagando o preço desse ritmo acelerado.
Respeitar o tempo da natureza é, sem dúvida, aprender a respeitar o nosso próprio.

*Professor, poeta e jornalista

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