Maio chega, e com ele, uma das datas mais simbólicas e emocionais do nosso calendário: o Dia das Mães. É tempo de homenagens, de flores, de gratidão. Mas também pode ser um tempo de cobrança silenciosa, de culpa e de dor para muitas mulheres. Em meio a imagens idealizadas de mães perfeitas e plenamente realizadas, é urgente abrirmos espaço para um olhar mais real e humano sobre a maternidade. E é aí que entra o debate sobre o mito do amor materno.
A expressão pode soar estranha à primeira vista. “Mito? Mas o amor de mãe não existe?” Existe, sim. E em muitos casos, é forte, profundo, transformador. O que estamos chamando de mito é a idealização desse amor como algo biológico, natural e inevitável em toda e qualquer mulher que se torna mãe.
A expressão foi popularizada pela historiadora francesa Elisabeth Badinter, que, em sua obra “Um amor conquistado: o mito do amor materno “ (1985), analisou como a maternidade foi moldada historicamente por fatores culturais, políticos e religiosos. Essa ideia, construída socialmente ao longo dos séculos, reforça que a maternidade é o destino natural da mulher — e que, ao parir, ela automaticamente se tornará uma fonte inesgotável de amor, paciência e dedicação. Essa visão foi reforçada por religiões, pelo sistema patriarcal, pela cultura e até mesmo por políticas públicas, como forma de manter as mulheres no papel de cuidadoras silenciosas e sacrificiais.
Mas a realidade da maternidade é muito mais complexa. Nem toda mulher deseja ser mãe. Nem toda mãe sente amor à primeira vista pelo bebê. Muitas vivem ambivalências profundas — amam, mas também se frustram, se arrependem, se esgotam. E isso não as torna menos mães. Isso as torna humanas.
O mito do amor materno tem um custo alto: ele silencia as dores maternas. Mulheres que sofrem com depressão pós-parto, que enfrentam dificuldades de vínculo, que se sentem sobrecarregadas ou que não se reconhecem no papel de mãe, muitas vezes vivem sua dor em segredo, por medo do julgamento. Afinal, como admitir que você está exausta, triste ou confusa em um mundo que espera que você esteja radiante, plena e grata o tempo todo?
A proposta aqui não é negar o amor materno, mas libertá-lo da obrigação e da idealização. Permitir que ele seja vivido de forma real, construída no dia a dia, com erros, acertos, cansaços e recomeços. Amar não é negar os próprios limites — é poder reconhecê-los e, ainda assim, continuar escolhendo estar ali.
Nesta semana do Dia das Mães, em vez de apenas presentear com flores, que tal oferecer espaço para a escuta? Que tal reconhecer a mãe como uma mulher inteira, com suas histórias, feridas, desejos e contradições?
Mais do que venerar a figura da mãe ideal, que possamos acolher a mãe real. Aquela que ama — mas que também se desespera. Que cuida — mas que também precisa ser cuidada. Que está presente — mas que, às vezes, sonha em fugir para respirar.
Porque desromantizar a maternidade não é desvalorizá-la. É permitir que ela exista com mais liberdade, verdade e afeto.
Feliz Dia das Mães a todas nós, mães reais, que ao desfazermos a coroa invisível da perfeição, trilhamos com nossos filhos a estrada do afeto verdadeiro — onde cada tropeço é laço, cada silêncio é abrigo, e cada olhar revela, como espelho, um no outro, a beleza de seres humanos em construção.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero