Wiliam de Oliveira
Você é favorável a que o trabalhador — patrão ou empregado — reduza suas horas de trabalho semanais para se dedicar mais à família, ao descanso e ao lazer, ganhando o mesmo salário?
Você, com certeza, diria sim. Eu também.
É a cereja do bolo. Encanta aos olhos, pois transmite a ideia de que a vida do trabalhador, da noite para o dia, se tornará, com o perdão dos adjetivos, mais doce e saborosa.
À parte os objetivos claramente eleitorais, para não dizer eleitoreiros, a aprovação, pelo Senado Federal, da proposta que põe fim à escala 6 x 1, a apenas dez dias do segundo turno das eleições, é, sem dúvida, a cereja que promete adoçar a vida do trabalhador.
Contudo, porém, todavia — há sempre uma conjunção adversativa querendo atrapalhar nosso paladar —, existe o bolo.
Aliás, existem milhões de bolos diferentes na confeitaria Brasil. E a maior parte dos confeiteiros, ou seja, dos empresários, enfrenta diariamente dificuldades para vender seus produtos aos consumidores.
Um dos ingredientes que pesam nessa receita é a elevada carga tributária brasileira, que encarece produtos e serviços, dificulta as vendas, compromete a sobrevivência das empresas e pode resultar no fechamento de negócios e na redução de vagas de emprego.
Outro ingrediente que ameaça a sobrevivência de muitos estabelecimentos é a concorrência das vendas pela internet. Cresce, a cada dia, o número de pessoas que compram on-line, muitas vezes por preços menores, e recebem os produtos em casa. Uma comodidade para o consumidor, mas também um desafio para o comércio presencial, que precisa disputar mercado e manter seus postos de trabalho.
Acrescente-se à receita outro problema que afeta negócios de todos os tamanhos: a falta de mão de obra qualificada, uma das grandes reclamações dos empresários brasileiros.
E não estamos falando apenas de grandes estabelecimentos. Falamos da lanchonete da esquina, do posto de gasolina, da loja, do supermercado de bairro e dos pequenos e médios comerciantes que movimentam o mercado e ajudam a sustentar a economia brasileira.
Diante de tudo isso, continuamos no país do faz de conta, acreditando que a cereja, sozinha, será capaz de fazer o bolo crescer, mesmo sem fermento.
Milhões de micro e pequenos empresários de todo o país, de esquerda ou de direita, agora olham para a proposta de mudança da escala 6 x 1 e fazem as contas
Calculadora nas mãos, tentam descobrir quanto essa mudança custará, como reorganizarão suas equipes e de onde virão os recursos para manter a operação funcionando.
Porque reduzir a jornada sem reduzir o salário pode representar um avanço para o trabalhador. Mas seus efeitos não desaparecem por decreto. Precisam ser absorvidos por empresas que já enfrentam custos elevados, concorrência acirrada e dificuldades para contratar profissionais qualificados.
É isso: a cereja é vermelha, bonita e parece dar aquele toque que faltava.
Só estão se esquecendo de uma coisa: é o bolo que precisa sustentar a cereja, e não o contrário.
Sem os ingredientes necessários, a massa pode não crescer. E, por mais bonita que seja a cobertura, o bolo corre o risco de embatumar.
Quem viver, provará.