O Brasil registrou mais de 40 mil mortes violentas intencionais em 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número supera em 44,5% a soma das mortes de civis registradas, no mesmo período, na Faixa de Gaza e na Ucrânia. A comparação é impactante e conduz a uma pergunta inevitável: o Brasil está em guerra?
Formalmente, não. Não existem tropas estrangeiras avançando sobre o território nacional, cidades bombardeadas ou um conflito armado oficialmente declarado. Entretanto, para milhares de famílias brasileiras que perderam parentes assassinados, a diferença entre a violência cotidiana e uma guerra pode parecer apenas conceitual.
Toda comparação exige cautela. Mortes violentas intencionais e baixas civis em conflitos armados são indicadores produzidos por metodologias e realidades diferentes. Além disso, as guerras provocam deslocamentos, fome, destruição de cidades e inúmeras mortes indiretas que nem sempre aparecem imediatamente nas estatísticas. Isso, porém, não diminui a gravidade do quadro brasileiro.
Os números revelam que o país convive com uma violência persistente, espalhada por ruas, bairros e comunidades. É uma guerra sem declaração oficial, mas alimentada pelo tráfico de drogas e de armas, pelas disputas entre organizações criminosas, pela violência doméstica, pelos confrontos e pela incapacidade histórica do poder público de proteger igualmente todos os cidadãos.
Essa tragédia também é marcada pela desigualdade. A violência não atinge todos da mesma maneira. Jovens, negros e moradores das periferias continuam entre as principais vítimas. Em muitas comunidades, o medo limita o direito de ir e vir, modifica rotinas e transforma a própria casa em abrigo diante de tiroteios e ameaças.
Não basta comemorar eventuais reduções percentuais enquanto dezenas de milhares de vidas continuam sendo interrompidas todos os anos. Segurança pública não pode ser tratada apenas como assunto policial ou usada como bandeira eleitoral. Ela exige inteligência, investigação, controle de armas, combate ao crime organizado, prevenção, educação, oportunidades para os jovens e integração entre União, estados e municípios.
O Brasil pode não estar oficialmente em guerra, mas vive uma emergência como em lugar em conflito. Quando um país perde mais de 40 mil pessoas para a violência em apenas um ano, a sociedade precisa abandonar a indiferença e exigir respostas concretas. Cada número representa uma vida, uma família destruída e uma ausência permanente.