20:35 - Segunda-Feira, 26 de Outubro de 2026

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ELEIÇÕES JN – O JORNALISMO EM DISCUSSÃO

Data da Publicação:

02/09/2026

Wiliam de Oliveira

O jornalismo é reflexo da sociedade.
Mas a responsabilidade do setor é apenas transmitir informação ou também contribuir para a formação de uma comunidade? Afinal, qual é o papel do jornalismo?
Sem a pretensão de esgotar tema tão amplo — objeto de dissertações de mestrado e teses de doutorado —, vou me atrever a pincelar algumas reflexões, tendo como “estudo de caso” a série de entrevistas com candidatos à Presidência da República que vem sendo realizada pela Rede Globo de Televisão, no espaço do Jornal Nacional.
Ressalto que não faz parte destas mal traçadas linhas abordar a performance dos candidatos. Minha intenção é, única e exclusivamente, fazer algumas considerações sob a ótica do jornalismo.
Como jornalista e professor de Comunicação, considero a formulação das perguntas o principal insumo de uma entrevista. E, nesse quesito, ao que me parece, a opção adotada pelos entrevistadores do JN foi abordar, na maioria das vezes, questões relacionadas às situações de corrupção envolvendo os candidatos, especialmente aqueles considerados com maiores possibilidades de vencer o pleito eleitoral de outubro.
Assim, boa parte dos 40 minutos destinados às entrevistas foi consumida por perguntas, algumas vezes repetitivas, dos entrevistadores e por respostas defensivas dos candidatos.
A sensação, em determinados momentos, foi a de estar diante de um tribunal, assistindo a um julgamento, a uma espécie de acareação conduzida pelos “advogados de acusação”, os experientes jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos.
E, nesse sentido, cabe uma ressalva processual: os referidos jornalistas não podem ser responsabilizados ou culpabilizados pelo formato escolhido, pois, certamente, ele foi resultado de um longo debate interno, realizado por diversas vozes dentro da emissora.
E voltamos à premissa inicial deste texto: o jornalismo é espelho da sociedade e, por sua vez, reflete os seus anseios.
Ou seja, as perguntas formuladas atenderam, supostamente, a uma parcela da audiência que deseja esclarecimentos sobre os inúmeros casos de corrupção no país e sobre o possível envolvimento dos candidatos nessas situações.
Por outro lado, não deveria também fazer parte do papel do jornalismo contribuir para a formação das pessoas e para a melhoria da qualidade de vida da população?
E, se essa fosse a escolha, a maioria das perguntas dos entrevistadores não deveria abordar também os inúmeros problemas enfrentados pelo país nas áreas da economia, da saúde, da educação e da segurança?
E, principalmente: quais são os planos de governo dos candidatos para enfrentar e resolver esses problemas?
Seria o jornalismo apenas uma caixa de ressonância da corrupção, dos desmandos e das falcatruas?
Ou poderia ser também um instrumento de aprimoramento da consciência dos eleitores, contribuindo para que, verdadeiramente, tenhamos um “voto consciente” e, consequentemente, melhores condições de vida para a população?
Contudo, há quem diga que, se as perguntas abordassem os planos de governo dos candidatos, as entrevistas se tornariam chatas demais e não atenderiam ao interesse popular — afinal, o público deseja, na linguagem popular, “ver o circo pegar fogo”.
É uma possibilidade.
Mas é justamente aí que surge a questão fundamental: o jornalismo deve apenas atender ao interesse do público ou também pode contribuir para qualificá-lo?
Porque, se o jornalismo é também instrumento de formação, talvez seja necessário oferecer ao eleitor não apenas aquilo que ele quer assistir, mas também aquilo que ele precisa conhecer para fazer suas escolhas.
Afinal, debaixo da lona do “Circo Brasil”, vivem todos os brasileiros.
Inclusive os jornalistas.

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