Agosto é conhecido como o mês de incentivo ao aleitamento materno. A campanha Agosto Dourado busca conscientizar sobre os benefícios da amamentação para o bebê e para a mãe, reforçando a importância do apoio familiar, social e profissional para que esse processo aconteça da melhor forma possível.
As informações sobre os benefícios do leite materno são amplamente divulgadas e têm um papel importante na promoção da saúde. No entanto, em meio a tantas campanhas e orientações, existe a experiência da mãe que deseja amamentar, mas não consegue, experiência que nem sempre encontra espaço para ser falada.
A maternidade costuma vir acompanhada de muitas expectativas. Antes mesmo do nascimento, muitas mulheres imaginam como será segurar o bebê pela primeira vez, como acontecerá a amamentação e como se sentirão ao viver esse momento. Quando a realidade corresponde ao esperado, a experiência pode ser bastante gratificante. Mas nem sempre as coisas acontecem dessa forma.
Há mães que enfrentam dores intensas, dificuldades na pega, baixa produção de leite, complicações de saúde, prematuridade do bebê ou outras condições que dificultam ou impedem a amamentação. Existem também aquelas que, apesar de todo esforço, não conseguem manter o aleitamento exclusivo ou precisam interrompê-lo antes do desejado.
Nesses casos, além dos desafios práticos, muitas mulheres se deparam com sentimentos difíceis de nomear. Frustração, tristeza, culpa, sensação de fracasso e a impressão de não estarem oferecendo ao filho aquilo que seria o melhor. Como se a impossibilidade de amamentar colocasse em dúvida sua capacidade de ser mãe.
Parte desse sofrimento nasce da forma como a maternidade é frequentemente apresentada. Ainda hoje existe uma idealização que associa o amor materno a determinadas experiências, como o parto ou a amamentação, como se existisse um único caminho possível para a construção do vínculo entre mãe e bebê.
Entretanto, os laços afetivos não se resumem a um ato específico. Eles são construídos diariamente por meio da presença, dos cuidados, do olhar atento, da capacidade de acolher as necessidades da criança e de responder a elas da melhor forma possível dentro das circunstâncias de cada família.
Amamentar pode ser uma experiência de profunda conexão, mas não é a única forma de construir intimidade e segurança emocional. Um bebê também encontra acolhimento no colo que o embala, na voz que o tranquiliza, no olhar que o reconhece e na disponibilidade afetiva de quem cuida dele.
Isso não significa minimizar a importância do aleitamento materno nem deixar de incentivar sua prática. Significa reconhecer que a realidade das famílias é diversa e que promover a saúde também envolve acolher aquelas que enfrentam dificuldades. Informar é fundamental, mas sem transformar a orientação em julgamento.
Muitas mães já atravessam o puerpério lidando com intensas transformações físicas e emocionais. Quando encontram críticas, comparações ou cobranças relacionadas à amamentação, o sofrimento pode se tornar ainda maior. O apoio, por outro lado, fortalece. Escutar sem julgar, oferecer ajuda prática e respeitar os limites de cada situação pode fazer uma enorme diferença.
O Agosto Dourado nos convida a valorizar o aleitamento materno. Mas talvez também possa nos convidar a ampliar o olhar sobre a maternidade. Porque cuidar de um bebê envolve muito mais do que a forma como ele é alimentado.
Por trás de cada mãe existe uma história, um contexto e desafios que nem sempre são visíveis. E toda mãe que busca cuidar de seu filho com amor, responsabilidade e dedicação merece acolhimento, independentemente do caminho que sua experiência de amamentação tenha seguido.
Afinal, o que nutre uma criança não é apenas o alimento que recebe, mas também os vínculos, o afeto e a segurança construídos nas relações que a cercam desde os primeiros dias de vida.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero