Hugo PONTES*
Em época de descrença na política, tornou-se comum ouvir que partidos deveriam “funcionar como empresas”. A frase costuma vir acompanhada de críticas à má gestão, à falta de transparência ou ao desperdício de recursos públicos. À primeira vista, a comparação parece fazer sentido: organização, eficiência e responsabilidade são qualidades desejáveis em qualquer instituição. No entanto, é preciso cuidado. Partidos políticos não são empresas e tratá-los como se fossem distorce o que seja a democracia.
Empresas existem para gerar lucro. Sua lógica é objetiva: produzir, vender, crescer e remunerar investidores. Se um produto não tem boa aceitação, ele é retirado do mercado. Se determinada estratégia não dá retorno financeiro, é substituída por outra mais rentável. O objetivo central é o desempenho econômico.
Partidos políticos, por sua vez, não têm finalidade lucrativa. Sua razão de existir é representar ideias, organizar correntes de pensamento, disputar eleições e contribuir para a formação da vontade popular. São instrumentos de mediação entre sociedade e Estado. Sua “matéria-prima” não é mercadoria, mas projeto de país; seu “produto” não é algo que se consome, mas propostas que impactam a vida coletiva.
Isso não significa que partidos estejam dispensados de organização ou profissionalismo. Ao contrário, por receberem recursos públicos e exercerem papel central no sistema democrático, devem prestar contas com rigor, adotar práticas transparentes e administrar bem as verbas. A exigência de responsabilidade é legítima e necessária. O erro está em reduzir a política à lógica do mercado.
Quando partidos passam a agir exclusivamente sob a ótica do cálculo eleitoral, corre-se o risco de transformar convicções em produtos ajustáveis à conveniência do momento. Ideias deixam de ser compromissos de longo prazo e passam a ser moldadas conforme pesquisas de opinião. Em vez de liderança política, prevalece a propaganda. Em vez de debate programático, “slogans” bem estudados.
A lógica empresarial valoriza a adaptação constante às preferências do consumidor. Já a política exige, muitas vezes, a defesa de posições que nem sempre são populares, mas que podem ser necessárias para o interesse público. Reformas estruturais, enfrentamento de desigualdades e proteção de direitos fundamentais raramente se resolvem com soluções imediatistas ou decisões guiadas apenas por índices de aprovação.
Além disso, o eleitor não é cliente. A relação entre cidadão e partido não se limita a uma escolha pontual de “produto” a cada ciclo eleitoral. Trata-se de um vínculo que envolve confiança, identidade e expectativas sobre o futuro coletivo. Quando essa confiança é rompida, o prejuízo não atinge apenas uma organização específica, mas enfraquece a própria credibilidade das instituições democráticas.
*Professor, poeta e jornalista