Esta semana, enquanto aguardava na fila da padaria, ouvi alguém comentar: “Nossa, já estamos em setembro e eu ainda não consegui alcançar as metas que tracei em dezembro do ano passado.” Não conhecia aquela pessoa nem sabia quais eram seus objetivos, mas a frase me fez refletir sobre como estamos acostumados a esperar que tudo aconteça rapidamente.
Talvez a tecnologia e a velocidade do mundo atual tenham fortalecido a ideia de que tudo pode ser resolvido de forma imediata. E, justamente por isso, tenha se tornado tão difícil lidar com aquilo que não depende apenas da nossa vontade ou do tempo que gostaríamos que levasse.
Queremos que os projetos deem certo rapidamente, que os relacionamentos encontrem respostas definitivas, que as oportunidades apareçam quando julgamos estar preparados. Desejamos que os tratamentos funcionem no tempo esperado, que as mudanças aconteçam conforme o planejado e que a vida acompanhe o ritmo das nossas expectativas.
Mas a experiência cotidiana insiste em nos lembrar de uma realidade desconfortável: a vida tem seu próprio tempo.
Existe um sofrimento particular na espera. Enquanto aguardamos por algo importante, a sensação é de que a vida está suspensa. Como se o presente fosse apenas um intervalo até que aquilo que desejamos finalmente aconteça. Por vezes adiamos projetos, felicidade e até momentos de prazer porque acreditamos que só poderemos viver plenamente quando conseguirmos aquela promoção no emprego, ou quando encontrarmos alguém para viver um grande amor. Sem perceber, transformamos o futuro em uma condição para viver o presente. A ansiedade frequentemente encontra terreno fértil nesse modo de funcionamento. Afinal, ela nasce justamente da tentativa de controlar aquilo que ainda não aconteceu.
Isso não significa que não devemos planejar ou perseguir objetivos. Sonhos, metas e projetos são importantes. O problema surge quando passamos a acreditar que tudo precisa acontecer exatamente da forma e no momento que imaginamos.
A vida raramente segue um roteiro previsível. Muitas das experiências que transformam nossa trajetória surgem de encontros inesperados, mudanças não planejadas e caminhos que jamais estavam nos planos originais.
Em uma sociedade que valoriza resultados rápidos, esperar costuma ser interpretado como fracasso ou atraso. No entanto, há uma diferença importante entre estar parado e estar em processo. Nem sempre enxergamos o que está sendo construído enquanto atravessamos determinado momento da vida. Muitas mudanças acontecem silenciosamente, antes de se tornarem visíveis. Talvez por isso seja tão difícil confiar no percurso. Todavia, podemos sempre nos lembrar que a vida não começa quando alcançamos aquilo que esperamos. Ela continua acontecendo enquanto esperamos.
E talvez exista sabedoria em reconhecer que nem tudo chega quando queremos. Algumas coisas chegam quando podem. Outras quando estamos prontos para recebê-las. E algumas sequer chegam, abrindo espaço para caminhos que jamais teríamos imaginado.
Por isso faz-se necessário compreender que viver também exige uma certa capacidade de caminhar sem garantias. Porque, gostemos ou não, a vida não acontece no nosso tempo. Ela acontece no tempo dela. E aprender a conviver com essa realidade pode ser uma das formas mais profundas de amadurecimento.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero