03:05 - Domingo, 20 de Setembro de 2026

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CLASSES MULTISSERIADAS – Problema ou Solução?

Data da Publicação:

29/11/2025

Hugo PONTES

Lembro-me bem do ano em que comecei a trabalhar na prefeitura de Poços de Caldas quando fiz concurso público para Supervisor Pedagógico.
Na época, 1987 – 38 anos atrás – sendo prefeito Adnei de Moraes e o secretário da educação era o professor Sérgio Manucci que elaborava um projeto para a nucleação (reunião) das escolas em duas ou três escolas maiores que atenderiam toda a zona rural de Poços de Caldas.
A primeira escola a ter esse perfil foi instalada na Fazenda Lambari. Para lá foram levados alunos das classes multisseriadas de fazendas da região.
Com isso, aos poucos, fomos sanando a questão das classes multisseriadas e o trabalho implantado resultou em um ganho para o ensino-aprendizagem dos alunos da zona rural.
Sabemos que, ainda, em muitas regiões rurais de estados brasileiros as classes multisseriadas — em que estudantes de diferentes anos aprendem juntos na mesma sala — são a única forma de garantir que crianças tenham acesso à escola. Apesar disso, o tema costuma aparecer nos debates públicos como sinônimo de atraso ou de prejuízo para a aprendizagem.
É verdade que o modelo impõe desafios consideráveis. Quando um único professor precisa atender simultaneamente alunos do 1º ao 5º ano, por exemplo, a demanda por planejamento é muito maior e o atendimento a cada aluno praticamente impossível, se não planejado. Sem formação específica, apoio e material pedagógico adequados, o docente pode se ver sobrecarregado, o que impacta diretamente na qualidade do ensino. Em muitos municípios, essa estrutura insuficiente leva à percepção — por vezes correta — de que o desempenho dos estudantes fica aquém do esperado.
Mas reduzir o debate ao prejuízo na aprendizagem não leva em conta o aspecto essencial que o problema não é o formato e, sim, as condições em que ele se desenvolve.
Pesquisas educacionais mostram que, quando bem-organizadas, essas turmas podem obter resultados iguais ou até melhores do que classes seriadas normais. A convivência entre idades diferentes estimula a cooperação, fortalece vínculos, favorece o protagonismo dos alunos mais velhos e desenvolve autonomia nos mais novos. Trata-se de um ambiente naturalmente colaborativo — algo que escolas urbanas tentam construir.
Além disso, as classes multisseriadas cumprem um papel social fundamental. Elas impedem o fechamento de escolas no campo, reduzem o êxodo rural escolar e garantem que crianças não precisem viajar longas distâncias em estradas precárias para estudar. A alternativa a esse modelo, muitas vezes, seria a ausência completa de escola, o que certamente resultaria em prejuízos muito maiores para o desenvolvimento das comunidades.
Portanto, o debate urgente não é sobre abolir ou manter turmas multisseriadas, mas sobre como fortalecê-las caso sejam indispensáveis. Investir em formação docente específica, adaptar currículos, produzir materiais didáticos voltados para múltiplos níveis de ensino e garantir acompanhamento pedagógico contínuo pode transformar essas classes em ambientes de aprendizagem.
As classes multisseriadas são, antes de tudo, uma resposta concreta às desigualdades territoriais do país. Em vez de tratá-las como um problema insolúvel, devemos reconhecê-las como uma oportunidade — desde que acompanhadas do compromisso político e pedagógico que a educação pública merece. Cada cidade, ou cada comunidade é que devem decidir.

*Professor, poeta
e jornalista

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