Nas últimas duas semanas, Poços de Caldas não foi apenas a cidade das águas e do turismo. Foi a cidade do medo. Quatro casos graves de violência contra a mulher em menos de uma semana. Um homem preso por descumprir medida protetiva e agredir a ex-namorada; outro que tentou explodir a casa da ex; um irmão que espancou a própria irmã com socos e chutes; e mais um agressor detido após ameaçar sua companheira.
Como médica, eu sei o que esses números significam na vida real. Eu vejo as marcas que não saem com o tempo. Não são apenas hematomas na pele; é a alma que se quebra quando o lugar que deveria ser de proteção — o lar — se torna um cenário de guerra.
O que mais me indigna como gestora e como mulher é perceber que a “folha de papel” da medida protetiva, sozinha, não está segurando a mão do agressor. Em dois desses casos recentes, as vítimas já tinham a justiça a seu favor, e mesmo assim foram caçadas, agredidas e ameaçadas de morte. Isso não é apenas um problema de polícia; é uma falha gritante na nossa rede de proteção.
Nós não podemos aceitar que a violência doméstica seja tratada como “normal” ou como algo que acontece “apenas entre quatro paredes”. Quando uma casa é ameaçada de explosão no coração da nossa cidade, a segurança de todos nós está em xeque.
Ao longo do meu mandato, lutei incansavelmente pela criação da Procuradoria da Mulher, Parlamento Feminino e do Centro de Saúde da Mulher em Poços. Fizemos isso porque sabíamos que a mulher precisa de um lugar onde não seja apenas ouvida, mas protegida e acolhida em todas as suas necessidades — da saúde física ao suporte jurídico. Mas o que esses últimos dias nos mostram é que precisamos de mais. Precisamos de uma vigilância ativa, de tecnologia a serviço da proteção (como o botão do pânico que sempre defendi) e, acima de tudo, de uma coragem política que não vire as costas para a realidade.
Uma cidade que se orgulha de ser bonita para quem a visita não pode ser um pesadelo para quem nela vive e trabalha. A dignidade de uma mulher não é negociável. A sua vida não é um detalhe estatístico.
Eu não entrei na vida pública para fazer discursos bonitos enquanto as nossas mulheres vivem escondidas atrás de trancas, com medo da própria sombra. Entrei para enfrentar as estruturas que permitem que isso continue acontecendo.
Cuidar de Poços é, antes de tudo, cuidar de quem cuida da nossa cidade. E cuidar significa resolver, proteger e garantir que nenhuma mulher se sinta sozinha diante da barbárie.
Dra. Regina Cioffi
Gestora em Saúde Pública