Há mais de três décadas exerço a medicina e, ao longo desse tempo, poucas situações me causaram tanta angústia quanto ver um paciente precisar de internação e simplesmente não existir um leito disponível.
Quem nunca viveu essa realidade talvez imagine que o maior problema da saúde pública seja a burocracia. Não é. O maior problema continua sendo a falta de estrutura.
Nos últimos anos participei de inúmeras discussões, reuniões e mobilizações defendendo a ampliação do número de leitos hospitalares para Poços de Caldas SUl de Minas Gerais. Infelizmente, o tempo passou, a população cresceu, a demanda aumentou e continuamos enfrentando praticamente o mesmo desafio: há mais pacientes do que vagas. Enquanto isso, surgem novas formas de organizar a fila.
O novo sistema estadual de regulação, o CORE-MG, nasceu com a proposta de integrar e tornar mais eficiente o acesso aos leitos. Como médica, sinceramente torço para que funcione. Toda iniciativa que possa reduzir o sofrimento das pessoas merece ser aperfeiçoada. Mas também tenho a obrigação de dizer o que vejo. Na prática, ainda convivemos com dificuldades operacionais, demora nas transferências e profissionais tentando entender uma ferramenta que deveria facilitar o atendimento. O sistema pode até evoluir, mas ele jamais resolverá um problema que é estrutural. Por que não existe tecnologia capaz de encontrar um leito onde ele não existe. A verdade é simples e incômoda: estamos tentando administrar a escassez quando deveríamos estar combatendo suas causas. Aqui em Poços de Caldas essa realidade merece atenção especial. Nossa cidade não atende apenas seus próprios moradores. Recebemos diariamente pacientes de dezenas de municípios do Sul de Minas. Somos referência regional em diversas especialidades e carregamos uma responsabilidade muito maior do que os limites do nosso município. Isso significa que cada leito ocupado representa uma decisão difícil. Cada vaga que falta afeta não apenas uma família de Poços, mas também famílias de toda a região que dependem daqui para receber atendimento. Nenhum profissional de saúde deveria ter que escolher quem espera. Nenhuma família deveria viver dias de angústia aguardando uma transferência. Nenhum paciente deveria permanecer em uma unidade de pronto atendimento porque simplesmente não há vaga hospitalar disponível. É preciso dizer com todas as letras: Minas Gerais precisa ampliar urgentemente sua capacidade de internação. Precisamos investir em novos leitos clínicos. Precisamos ampliar os leitos de UTI. Precisamos fortalecer os hospitais regionais. Precisamos revisar o financiamento hospitalar, atualizar repasses e garantir condições para que as instituições consigam crescer sem viver permanentemente no limite. A regulação é importante. A tecnologia é importante. A organização da fila também é importante. Mas nenhuma dessas ferramentas substitui aquilo que realmente salva vidas: a existência do leito. Não podemos aceitar que a solução seja apenas redistribuir uma escassez que já se tornou crônica. A saúde pública precisa voltar a planejar o futuro. Minas Gerais tem profissionais altamente qualificados, hospitais comprometidos e uma população que merece respeito. O que falta é transformar a expansão da capacidade hospitalar em prioridade permanente de Estado. Quem espera por um leito não está interessado no nome do sistema que administra a fila. Está interessado em sobreviver. E essa continua sendo a medida mais importante de qualquer política pública de saúde.
Dra. Regina Cioffi
Médica e Gestora em Saúde Pública