Wiliam de Oliveira
Um leigo como eu, nascido em Poços de Caldas, atrever-se a comentar sobre as chamadas “terras raras” e sua possível exploração no planalto do município e região é, com o perdão do trocadilho, entrar em um terreno pedregoso. As informações ainda não são conclusivas nem plenamente claras e, a cada dia, novos fatos vêm à superfície. Soma-se a isso um componente inevitável: a ligação afetiva com a cidade, capaz de influenciar qualquer análise.
Feitas essas ressalvas, sem a pretensão de esgotar um tema tão complexo, mas cumprindo meu papel de jornalista e cidadão, não me furtarei a apresentar algumas reflexões.
Ao que tudo indica, a Caldeira de Poços de Caldas — que abrange municípios como Poços de Caldas e Caldas — abriga uma das maiores e mais promissoras jazidas de elementos de terras raras do mundo. A descoberta despertou forte interesse internacional, sobretudo em razão da transição energética. Estima-se que a região possua mais de 1,6 bilhão de toneladas de argila iônica mineralizada, contendo elementos essenciais para a fabricação de superímãs utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas e diversas tecnologias estratégicas. Atualmente, as empresas Meteoric Resources e Viridis Mining and Minerals lideram as pesquisas e as etapas de licenciamento, com previsão de início da exploração comercial em 2028.
Entretanto, o projeto vem provocando intenso debate socioambiental. As principais preocupações dizem respeito ao consumo de água, à proximidade das áreas de mineração com bairros residenciais, aos riscos de contaminação radiológica e aos possíveis impactos sobre as nascentes, a vegetação, a agricultura e o turismo, patrimônio histórico e econômico da região.
Diante dessas incertezas, a sociedade civil passou a se mobilizar. Audiências públicas, manifestações populares, visitas técnicas e debates institucionais vêm marcando esse processo. Destacam-se a audiência realizada em Caldas, em fevereiro de 2025; a Marcha contra a Mineração de Terras Raras, ocorrida em maio de 2026, em Poços de Caldas, seguida de audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais; e a visita técnica de representantes do Governo Federal, em junho de 2026, que resultou na elaboração de um dossiê com reivindicações voltadas à proteção hídrica, ambiental e social. Paralelamente, a Câmara Municipal acompanha o tema por meio de uma Comissão Especial.
Entre as principais reivindicações está a realização de estudos independentes sobre os impactos hídricos e radiológicos. O argumento é simples: quando os levantamentos são financiados pelas próprias empresas interessadas na exploração, inevitavelmente surgem dúvidas quanto à sua imparcialidade.
O cenário é complexo e ainda percorrerá um longo caminho. No entanto, diante do volume de investimentos previstos, dos interesses geopolíticos envolvidos e da importância estratégica desses minerais para a economia mundial, tudo indica que a exploração das terras raras na Caldeira de Poços de Caldas caminhará para sua aprovação, amparada, sobretudo, pelo discurso do desenvolvimento sustentável.
É justamente nesse ponto que reside a questão essencial: desenvolvimento para quem e a que preço.
Não podemos esquecer que as consequências de qualquer intervenção recaem sobre todos os seres vivos — seres humanos, animais, plantas e microrganismos. Cada um deles desempenha, silenciosamente, uma função indispensável para o equilíbrio do ecossistema.
Se a vida deixar de ser o centro das decisões, o desenvolvimento poderá até gerar riqueza, mas jamais será verdadeiramente sustentável.
Porque, entre todas as riquezas escondidas sob a terra, existe uma que nenhuma mineração será capaz de extrair, reproduzir ou substituir.
A vida.
Ela, sim, é a mais rara de todas.